Os benefícios de aprender a programar
Lembro-me que, quando tentei aprender latim há mais de dez anos (plano que infelizmente tive de abortar para aguardar melhor oportunidade), li no prefácio de Napoleão Mendes de Almeida à sua clássica Gramática Latina a promessa de que aprender latim me faria ter facilidade não só para dominar as línguas clássicas e neolatinas, mas também para aprender matemática, lógica e todas as demais ciências. Pareceu-me na época um exagero - o que pude confirmar com o passar dos anos. Não que aprender latim não seja ótimo para facilitar o acesso aos clássicos (diz-se que Voltaire afirmava que valia a pena aprender latim apenas para ler a Eneida no original, tal a beleza dos versos de Virgílio), e é claro que quem quer que adquira o hábito de estudo e leitura em uma disciplina como o latim terá alguma facilidade para aprender qualquer outra coisa, tão logo se interesse por mudar de área de estudos. No entanto, não se pode esquecer o princípio de especificidade: se você quer aprender matemática, deve estudar matemática e não latim; ou seja, aprender latim não é “a” solução para todos os seus problemas intelectuais.
Posteriormente tive contato com essa ideia - a de que há alguma disciplina ou área de estudos capaz de “abrir as portas da inteligência” e facilitar o acesso a todas as demais ciências - em outros lugares: já vi, dentre cristãos e judeus, pessoas com uma visão mística do hebraico; já ouvi quem afirmasse que o estudo da lógica continha o segredo para pensar bem; diz-se que Heidegger achava o grego superior às demais línguas com relação à expressão filosófica…
Não quero cair, portanto, no erro de afirmar que aprender a programar será o mapa para alcançar o Santo Graal da inteligência. Li em algum lugar que o grande Robert Alter, um dentre os meus críticos literários e tradutores preferidos, escreve à mão e necessita de que suas secretárias digitem no computador os seus livros; o que prova que não é sequer necessário aprender a ligar um computador para se ter uma vida intelectual autêntica, sem que nada lhe falte.
Mesmo assim, vou listar alguns benefícios concretos que tenho percebido ao longo dos últimos dois anos em que tenho aprendido a programar:
Enxergar os dados de forma diferente.
Independentemente de em qual área de estudos você atua, se você lida com dados - sejam históricos, literários ou de qualquer ordem -, aprender o básico da linguagem de programação Python e a utilizar as bibliotecas Pandas, Matplotlib e ydata-profiling fará você enxergar de forma diferente os dados. Por exemplo, um dos autores de Six Septembers: Mathematics for the Humanist, que é professor de literatura, utiliza programação e matemática para analisar textos de literatura, seja para averiguar a autoria de textos antigos, seja para responder perguntas como: “Este determinado autor tem fama de escrever parágrafos muito longos, será que uma análise matemática dos seus textos confirma essa hipótese?”.
No exercício da criatividade.
É um fato que, com o “vibe coding”, qualquer um pode falar em linguagem natural e, com a ajuda de Inteligência Artificial, construir softwares complexos, de sites a aplicativos, com uma facilidade que não existia no passado. (Sabe-se que, se a intenção é construir um software profissional, a IA falha bastante, principalmente em questões de segurança, de modo que até o momento os agentes de IA são apenas ferramentas a serem utilizadas pelos programadores.) No entanto, para o exercício da criatividade, acredito que aprender a programar, mesmo para quem não pretenda trabalhar com programação, pode ser muito estimulante. Comparo, neste caso, com o aprendizado de música.
Nas horas vagas, quando me sinto inspirado, gosto de compor músicas como esta e, por outro lado, tenho escutado nos últimos dias música composta com a ajuda de IAs, como estas aqui. Talvez seja verdade que compor músicas com a ajuda de IA também seja uma forma de exercitar a criatividade, mas tenho certeza que o modo de compor sem IA é muito diferente, ainda que os resultados sejam os mesmos, ou mesmo que a música feita por IAs seja de qualidade superior.
Na compreensão do mundo atual.
Acredito que há disciplinas que são atemporais e outras que têm uma importância momentânea, mas mesmo assim crucial, na compreensão do mundo atual. Teologia, filosofia clássica e literatura pertencem ao primeiro tipo; enquanto que as disciplinas que pertencem ao segundo tipo costumam variar: se você vivesse nos sec. XVII, XIX ou na transição e no começo do XX, estudar física newtoniana, biologia, lógica ou física quântica e relatividade seriam relevantes para se entender o que se estava discutindo nos meios científicos daqueles tempos. Pois bem, no momento atual aprender o básico de programação - e suas irmãs: matemática e lógica - pode ajudar a entender o alcance, e a limitação também, da computação e da inteligência artificial.
No momento, estou tentanto construir uma máquina virtual (um simulador da arquitetura de um computador simples, baseado neste tutorial). Isto me faz perceber o qual genial é a invenção da computação; e também entender os limites desta criação, o que torna a ideia de que um computador ou uma arquitetura de IA possa pensar como um ser humano um tanto ridícula para mim (como Camilo Chacón Sartori discute com detalhes técnicos neste artigo.
Em todos esses casos, podemos falar do aprendizado de programação como um “letramento digital” (“Digital literacy”, nas palavras de Winnie Soon e Geoff Cox), que pode trazer muitos benefícios, sem que isso seja algo místico ou obrigatório para todos.

