<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[O Substack de wagner]]></title><description><![CDATA[O meu Substack pessoal]]></description><link>https://wagnercastro.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5VHS!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fba2998e7-c540-4fd8-b6c4-31e337b55c59_144x144.png</url><title>O Substack de wagner</title><link>https://wagnercastro.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 08 May 2026 01:35:13 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://wagnercastro.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[wagner castro]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[wagnercastro@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[wagnercastro@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[wagner castro]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[wagner castro]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[wagnercastro@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[wagnercastro@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[wagner castro]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Afinal, sobre o que se deve escrever no Substack?]]></title><description><![CDATA[Ser&#225; melhor se concentrar em um &#250;nico tema ao escrever?]]></description><link>https://wagnercastro.substack.com/p/afinal-sobre-o-que-se-deve-escrever</link><guid isPermaLink="false">https://wagnercastro.substack.com/p/afinal-sobre-o-que-se-deve-escrever</guid><dc:creator><![CDATA[wagner castro]]></dc:creator><pubDate>Thu, 30 Apr 2026 21:22:52 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5VHS!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fba2998e7-c540-4fd8-b6c4-31e337b55c59_144x144.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Em meu artigo anterior, eu comentei de passagem o fato de ter lido em mais de um lugar aqui no Substack o conselho de se concentrar a escrita de uma newsletter em apenas um &#250;nico tema. Acredito que o conselho tem como objetivo principal dar uma receita para aumento de engajamento, mas, mesmo assim, acredito ser um tema interessante a debater.</p><p>Em primeiro lugar, &#233; necess&#225;rio pensar nos motivos que uma pessoa tem para escrever e, o que conecta-se diretamente a isto, no valor que a escrita pode ter: cient&#237;fico, filos&#243;fico, teol&#243;gico, documental, liter&#225;rio e assim por diante. Um profissional, por exemplo m&#233;dico, programador ou matem&#225;tico, pode querer escrever textos com valor estritamente cient&#237;fico para divulgar seu trabalho. Neste caso, faz todo o sentido concentrar a escrita em um &#250;nico tema, ou pelo menos em um conjunto limitado e pr&#233;-definido de temas. </p><p>Por&#233;m, no caso de um escritor que busca o ideal de que seus escritos tenham em primeiro lugar valor liter&#225;rio - ainda que eles possam tamb&#233;m ter valor cient&#237;fico, filos&#243;fico, cient&#237;fico etc. -, o mesmo n&#227;o se aplica, visto que neste caso a forma liter&#225;ria &#233; o mais importante e, a rigor, n&#227;o h&#225; propriamente temas estritamente &#8220;liter&#225;rios&#8221; - tudo que interesse a um escritor pode fazer parte da sua literatura, das hist&#243;rias infantis de C. S. Lewis aos estudos de caso de neurologia do Oliver Sacks, contanto que a forma dada ao texto tenha qualidade liter&#225;ria.</p><p>C. S. Lewis escrevia hist&#243;rias infantis, romances, poesia, cr&#237;tica liter&#225;ria e textos de apolog&#233;tica crist&#227;; Frederico Louren&#231;o escreve sobre m&#250;sica cl&#225;ssica, dan&#231;a, gram&#225;tica grega e latina, assim como romances, poesia, tradu&#231;&#245;es, coment&#225;rios b&#237;blicos; Otto Maria Carpeaux escrevia sobre filosofia, literatura e m&#250;sica; o j&#225; citado Oliver Sacks colocava em seus livros textos sobre neurologia, teoria do caos, qu&#237;mica e tamb&#233;m trechos autobiogr&#225;ficos e reflex&#245;es sobre filosofia da ci&#234;ncia; o escritor brasileiro Ronald Robson escreve sobre literatura brasileira e cl&#225;ssica, filosofia, hist&#243;ria do pensamento, matem&#225;tica e programa&#231;&#227;o&#8230;. A lista de escritores que se arriscam em diversos temas &#233; vasta e seria desnecess&#225;rio continuar aqui - cito apenas alguns escritores de que gosto e que me v&#234;m &#224; mente agora. </p><p>Algo que deveria ser ressaltado &#233; que, idealmente, todos os que escrevem deveriam produzir textos que possuem qualidade liter&#225;ria, mas sabemos, claro, que isto n&#227;o acontece na pr&#225;tica: durante a minha especializa&#231;&#227;o em Osteopatia (sou fisioterapeuta), estudei com devo&#231;&#227;o o, a meu ver, bel&#237;ssimo <a href="https://www.amazon.com.br/Moore-Anatomia-Orientada-Clinica-Arthur-Dalley/dp/8527740117/ref=sr_1_1?crid=JNX03C0N9GWN&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.cTIXIzGMC7i4womlXAV_Y6I9oTq5CGQ19wpxCRVqrfATuqnlOdq18-OBJJ8xhYjlWypAUm0nm9FoRkjPZXkP5n8VHFcweCbq1GAeCgRU0jnUGOQeouTgaeSGkdhi8DGXRD7c5joqYHHPEjXSb8Omubfkpp8FSEaqVYi3A5xHupgLnNmtAvBD8cQX-VQu1QnYNCmHzhjLWLuLn73-Vh9FyzqAtV9szUhhl2Gfj7eZZ1h80_xKdYeJGiMK9zdFZfqUociHU3CK5-FAIKmdb5xS5BaQ5PxteQjJ9O-iHfwPHDg.uPduEllstSJyR3rJaNh39u8feWdQHnMqeIlLC41B7Yc&amp;dib_tag=se&amp;keywords=anatomia+orientada+para+a+cl%C3%ADnica&amp;qid=1777581133&amp;sprefix=anatomia+orientada+para+a+%2Caps%2C199&amp;sr=8-1&amp;ufe=app_do%3Aamzn1.fos.25548f35-0de7-44b3-b28e-0f56f3f96147">Anatomia Orientada para a Cl&#237;nica</a>, que cham&#225;vamos simplesmente de &#8220;Moore&#8221; (o nome do falecido autor das primeiras edi&#231;&#245;es), mas eu jamais o indicaria para quem quer que n&#227;o tenha como &#250;nico interesse aprender anatomia. </p><p>Coisa de ordem totalmente diferente ocorre em textos de valor liter&#225;rio. Li sem arrependimento textos sobre temas pelos quais me interesso muito pouco ou mesmo nada, como astrologia simb&#243;lica (n&#227;o confunda, n&#227;o &#233; astrologia preditiva), economia, pol&#237;tica, a filosofia de Maquiavel, homeopatia e artes marciais, apenas porque os autores que falavam sobre esses temas, C. S. Lewis, Olavo de Carvalho e Ronald Robson, se interessaram por eles e eu achei que a qualidade liter&#225;ria do que escreviam valia a pena.  </p><p>Tenho dois livros publicados, um de ensaios sobre espiritualidade ao qual tentei dar uma qualidade liter&#225;ria que auxiliasse na transmiss&#227;o do conte&#250;do e outro de poesia, mas sempre penso em escrever um dia um texto cient&#237;fico (quem sabe de fisioterapia ou programa&#231;&#227;o?) que busque ter tamb&#233;m valor liter&#225;rio, sem com isso for&#231;ar cita&#231;&#245;es ou usar uma linguagem excessivamente liter&#225;ria onde ela n&#227;o cabe.</p><p>Esses s&#227;o os dois benef&#237;cios que percebi ao ler textos que possuem qualidade liter&#225;ria sem serem &#8220;literatura&#8221; em sentido estrito: amplia-se o conhecimento e aprende-se a se expressar sobre qualquer tipo de tema. </p><p> </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Angine de Poitrine e a música microtonal]]></title><description><![CDATA[Minha aventura pelo universo da m&#250;sica p&#243;s-tonal]]></description><link>https://wagnercastro.substack.com/p/angine-de-poitrine-e-a-musica-microtonal</link><guid isPermaLink="false">https://wagnercastro.substack.com/p/angine-de-poitrine-e-a-musica-microtonal</guid><dc:creator><![CDATA[wagner castro]]></dc:creator><pubDate>Sun, 19 Apr 2026 17:58:29 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5VHS!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fba2998e7-c540-4fd8-b6c4-31e337b55c59_144x144.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>Disclaimer: </em>como este artigo fala sobre m&#250;sica, ter&#225; necessariamente muitos <em>links</em> para que o leitor possa ouvir as m&#250;sicas e compositores mencionados. </p><p>(Aqui na substack li mais de uma vez o conselho de focar em um &#250;nico tema para facilitar a divulga&#231;&#227;o do que escrevo, conselho que tenho conscientemente ignorado, visto que quase nenhum dos escritores que admiro passaria por este crivo e, a meu ver, a gra&#231;a de escrever &#233; poder tratar de qualquer tema que me interesse.)</p><div><hr></div><p>Confesso que nunca gostei muito de m&#250;sica dodecaf&#244;nica, ou ao menos da m&#250;sica dodecaf&#244;nica que eu conhecia, que era aquela composta por Arnold Sch&#246;nberg (veja, por exemplo, a sua estranh&#237;ssima <a href="https://www.youtube.com/watch?v=bQHR_Z8XVvI&amp;list=RDbQHR_Z8XVvI&amp;start_radio=1">Suite para piano, Op.25</a>). O motivo &#233; que ela sempre me pareceu arte feita propositalmente para &#8220;&#233;pater le bourgeois&#8221; (chocar os burgueses) - inten&#231;&#227;o que est&#225; clara em algumas obras do pr&#243;prio Sch&#246;nberg e na Sagra&#231;&#227;o da Primavera de Stravinsky, como t&#227;o bem descreveu <a href="https://www.amazon.com.br/Sagra%C3%A7%C3%A3o-Primavera-Primeira-Nascimento-Modernidade/dp/6587138624/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=2UDIVEKL9FB90&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.MFsA0LjmqhbNEP7AndQmkhrg2ivTn7Krqk4-5keIVUCUbHiAYDw0je0Ad-kT6anAevWGwyNjw1YAuGkYPo-wmHpz92KkY6xWdiJgU5BVdjgqakZlY5x0qAM5Csl0SnwKjhDFPm4aPdKa3fQ-I6OS7VCOq70rRJRJu6ggrQ1-UUezEvQ2hNsgabzmHdXYJ5KmJ8GRFTL420qL2R4XYVHHEknc1K5EFDSFWAxxmRVNXL-lLV93BxTFBSaPvza1-OEKj7B25zLxV9el69kchN2ZEC0pqEq0FpotxiyQcUmgceA.K6D8TlLy0H3KiMnYIAzGmOB3zaIJ3nHgVy0cpAQjxTI&amp;dib_tag=se&amp;keywords=modris+eksteins&amp;qid=1776615513&amp;sprefix=modris+ekstei%2Caps%2C288&amp;sr=8-1&amp;ufe=app_do%3Aamzn1.fos.ada3c51e-29ed-4c43-bd2b-e9d26b6ec883">Modris Eksteins</a>.</p><p>Mas, com o sucesso do duo canadense Angine de Poitrine (se voc&#234; n&#227;o os conhece, <em>google it!</em>), a parte que me cabe do algoritmo do Youtube tem me lotado de discuss&#245;es sobre aquilo que se convencionou chamar de m&#250;sica p&#243;s-tonal - atonalismo, dodecafonismo, serialismo e microtonalismo. Vou deixar abaixo a defini&#231;&#227;o b&#225;sica, parafraseada por mim a partir da wikipedia, de cada um desses tipos de composi&#231;&#227;o, que o leitor que j&#225; conhece poder&#225; pular se quiser:</p><ul><li><p><strong>Atonalismo: </strong>m&#250;sica que n&#227;o tem uma tonalidade predomintante;</p></li><li><p><strong>Dodecafonismo: </strong>todas as doze notas da escala crom&#225;tica (do-r&#233;-mi-f&#225;-sol-l&#225;-si e seus bem&#243;is e sustenidos) est&#227;o igualmente presentes na m&#250;sica, sem o predom&#237;nio de nenhuma nota;</p></li><li><p><strong> Serialismo: </strong>amplia a organiza&#231;&#227;o matem&#225;tica do dodecafonismo, estendendo o uso de s&#233;ries pr&#233;-concebidas tamb&#233;m para o ritmo, timbre, altura etc. da m&#250;sica. Costuma resultar no tipo de m&#250;sica mais esquisito de todos - vide <a href="https://www.youtube.com/watch?v=B-F1PBa85o4&amp;list=RDB-F1PBa85o4&amp;start_radio=1">Pierre Boulez</a>;</p></li><li><p><strong>Microtonalismo: </strong>m&#250;sica que usa intervalos menores do que aqueles que estamos acostumados na m&#250;sica ocidental (por exemplo, entre o d&#243; e o d&#243; sustenido, poder&#225; haver uma nota que n&#227;o existe na maioria dos instrumentos ocidentais);</p></li></ul><p><em>Uma observa&#231;&#227;o:</em> a m&#250;sica antiga n&#227;o tinha uma organiza&#231;&#227;o tonal t&#227;o clara, pois a organiza&#231;&#227;o harm&#244;nica que se tornou comum no ocidente foi estruturada inicialmente no per&#237;odo barroco; mesmo assim o atonalismo, o dodecafonismo e o serialismo - ou seja, o esfor&#231;o consciente para que a m&#250;sica n&#227;o tenha nenhuma tonalidade predominante - s&#227;o cria&#231;&#245;es modernas. J&#225; o microtonalismo &#233; antigo e ainda comum em culturas n&#227;o ocidentais, estando presente na m&#250;sica indiana, &#225;rabe etc. Entretanto, em contextos ocidentais o microtonalismo pode ser usado como uma forma de arte &#8220;experimental&#8221;, como &#233; o caso do Angine de Poitrine.</p><p>Estando o leitor contextualizado, vamos aos fatos: particularmente, achei interessante a m&#250;sica da banda canadense, mas, amputada da performance ao vivo deles - que envolve o uso de fantasias esquisit&#237;ssimas e de palavras inventadas, inintelig&#237;veis - n&#227;o achei a m&#250;sica que eles fazem nem t&#227;o experimental, nem t&#227;o estranha como parece ter achado a maioria das pessoas que comentam na p&#225;gina do <a href="https://www.youtube.com/watch?v=0Ssi-9wS1so&amp;list=RD0Ssi-9wS1so&amp;start_radio=1">Youtube</a> da apresenta&#231;&#227;o da banda ao vivo em uma r&#225;dio francesa. Ao contr&#225;rio, continuo achando algumas pe&#231;as de Sch&#246;nberg, e at&#233; mesmo os primeiros movimentos do maravilhoso <a href="https://www.youtube.com/watch?v=QAQmZvxVffY&amp;list=RDQAQmZvxVffY&amp;start_radio=1">Quatuor pour la fin du temps</a>, composto num campo de prisioneiros de guerra por Olivier Messiaen, muito mais estranhos. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!AcpS!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F68fba18a-2e90-47ee-97bb-46f0205e2117_268x385.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!AcpS!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F68fba18a-2e90-47ee-97bb-46f0205e2117_268x385.jpeg 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Entrou para a minha listinha de leituras futuras</figcaption></figure></div><p>Ainda assim, como o tema me interessou, acabei me dedicando nas &#250;ltimas semanas, a escutar m&#250;sica atonal, dodecaf&#244;nica, serial e microtonal, por&#233;m com uma ressalva: queria encontrar m&#250;sica p&#243;s-tonal que fosse realmente bonita (um termo melhor: expressiva), ao menos para mim, e n&#227;o que fosse somente algo &#8220;diferente&#8221;.</p><p>Partindo desta ressalva, eis os cinco melhores &#225;lbuns e composi&#231;&#245;es (mais um b&#244;nus) que estou escutando enquanto lavo lou&#231;as, que &#233; quando algu&#233;m que trabalha, estuda e tem uma filha de um ano tem tempo para se dedicar ao &#8220;&#243;cio criativo&#8221;: </p><ol><li><p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1Qd9t18ene8&amp;list=RD1Qd9t18ene8&amp;start_radio=1">Concerto para violino</a>, de Alban Berg: m&#250;sica dodecaf&#244;nica que &#233; realmente expressiva, talvez por ter alguns momentos uma &#8220;tend&#234;ncia tonal&#8221;, mesmo que nunca chegue a ser m&#250;sica realmente m&#250;sica tonal;</p></li><li><p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=W5ZAGvyOSn8&amp;list=RDW5ZAGvyOSn8&amp;start_radio=1">Nocturnal After John Dowland for Guitar, Op. 70</a>, do brit&#226;nico Benjamin Britten: pe&#231;a que come&#231;a atonal e progressivamente vai se aproximando da m&#250;sica tonal, com um final bel&#237;ssimo - e que de quebra nos leva a conhecer o maravilhoso compositor vitoriano <a href="https://www.youtube.com/watch?v=pS0ltDtJi8c&amp;list=PL4svdMQaNVdwUJeo2gs5yzJ-HEtxZ_5uP">John Dowland</a>, homenageado por Britten;</p></li><li><p>O vigoroso bal&#233; <a href="https://www.youtube.com/watch?v=7TPS6TLKoBk&amp;list=RD7TPS6TLKoBk&amp;start_radio=1">Agon</a>, de Stravinsky: foi a &#250;nica composi&#231;&#227;o pertencente ao serialismo de que realmente gostei;</p></li><li><p>A dupla de m&#250;sicos turcos Tolgahan &#199;o&#287;ulu e Sinan Cem Ero&#287;lu (que eu sequer sei como se pronuncia) possui um bel&#237;ssimo &#225;lbum de m&#250;sica microtonal: <em><a href="https://www.youtube.com/watch?v=zbVOLnxgc64&amp;list=OLAK5uy_lGoOj2NqYpzLY3_S3OsksS8hl7-l6N64Y&amp;index=2">Microtonal Guitar Duo</a> - </em>achei incr&#237;vel o qu&#227;o natural a m&#250;sica microtonal pode soar;</p></li><li><p>E, se voc&#234; gostar do &#225;lbum anterior, Tolgahan &#199;o&#287;ulu tamb&#233;m possui um &#225;lbum solo: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=OJ-KCIvMwZ0&amp;list=OLAK5uy_ncD2IF8ejLfQJT6jQirdIvKJE0QTT5Hd0&amp;index=2">Microtonal</a>.</p></li></ol><p><em>B&#244;nus: </em>por acaso, acabei encontrando em meio &#224; <em>selva selvaggia </em>da internet um guitarrista que toca um <a href="https://www.youtube.com/watch?v=-7pvEiaWAcY&amp;list=RD-7pvEiaWAcY&amp;start_radio=1">jazz atonal</a> bem interessante, aparentemente de modo improvisado.</p><p>No fim das contas, depois de ouvir tanta m&#250;sica p&#243;s-tonal bonita (ou, novamente: expressiva), nem acho mais a Suite para piano, op. 25 de Sch&#246;nberg t&#227;o esquisita assim&#8230;</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Um conto simbólico/psicanalítico]]></title><description><![CDATA[Vers&#227;o de um conto que, quem sabe, um dia ser&#225; publicado em livro]]></description><link>https://wagnercastro.substack.com/p/um-conto-simbolicopsicanalitico</link><guid isPermaLink="false">https://wagnercastro.substack.com/p/um-conto-simbolicopsicanalitico</guid><dc:creator><![CDATA[wagner castro]]></dc:creator><pubDate>Tue, 14 Apr 2026 19:37:41 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5VHS!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fba2998e7-c540-4fd8-b6c4-31e337b55c59_144x144.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Acredito que toda pessoa possui uma hist&#243;ria m&#237;tica que concentra, em forma de s&#237;mbolos, todos os seus anseios, temores e aspira&#231;&#245;es. Pe&#231;o licen&#231;a ao leitor para contar tamb&#233;m o meu mito pessoal.</p><p>Tudo come&#231;a quando, em momentos de tranquilidade e devaneio, vejo-me habitando em uma pequena cidade que n&#227;o se parece com nenhuma das que conhe&#231;o. Nela, a natureza e a civiliza&#231;&#227;o convivem harmoniosamente, pois as pequenas casas de madeira, chal&#233;s na verdade, est&#227;o cercadas pelos campos verdes que se perdem de vista no horizonte &#8211; mais ou menos como no condado onde vivem os <em>hobbits</em> de <em>O Senhor dos An&#233;is, </em>ou nas cidades dos antigos desenhos do Walt Disney.</p><p>Vejo ent&#227;o em destaque uma dessas casas, em tudo semelhante &#224;s outras da cidade: &#233; a casa onde moro. Nela h&#225; algumas estantes de livros que formam uma pequena biblioteca e um piano, e eu, sentado em uma poltrona confort&#225;vel, em meio a essas estantes, contemplo pela janela quase toda a cidade iluminada ao entardecer, com suas casinhas com chamin&#233;s que liberam uma fuma&#231;a de cor cinza-clara que sobe vagarosa em dire&#231;&#227;o ao c&#233;u. Fico a olhar aquela cena, sem que nenhuma palavra me venha &#224; mente, para ent&#227;o fechar os olhos, depois de alguns segundos, satisfeito, relaxado - a vida &#233;, sim, muito boa, obrigado.</p><p>Imagino sempre que a biblioteca desta minha casa, paradoxalmente e <em>&#224;</em> <em>la</em> Borges, apesar de pequena possui todos os livros importantes de todos os ramos do conhecimento humano, da poesia &#224; matem&#225;tica, da gram&#225;tica &#224; f&#237;sica qu&#226;ntica, tudo organizado nos moldes da biblioteconomia mais moderna. Em frente ao piano, em uma das estantes, h&#225; diversos livros com as partituras que costumo tocar, &#224;s vezes s&#243;, &#224;s vezes para amigos &#237;ntimos que v&#234;m jantar em casa.</p><p>Em meio a esta paz, no entanto, uma d&#250;vida me assalta: o que devo fazer agora? Tocar piano, ler, escrever, refletir ou contemplar a paisagem? Pois todas essas coisas me parecem igualmente boas, e &#233; levemente aflitivo perceber que n&#227;o se pode fazer tudo isto ao mesmo tempo - escolher fazer alguma dessas atividades &#233; deixar de fazer todas as outras...</p><p>Enquanto ainda estou absorto em meio &#224; d&#250;vida sobre o que farei do instante seguinte, percebo que da cozinha vem o aroma de p&#227;es, bolos e de caf&#233; fresco que alimenta o olfato antes de alimentar o paladar. &#201; a hora do lanche da tarde. Vou at&#233; a mesa, que fica tamb&#233;m em meio &#224;s estantes de livros, e sento-me para comer os p&#227;es assados na hora, acompanhados do caf&#233; rec&#233;m passado que fumega em um bule branco de cer&#226;mica. Tudo tem um sabor que me remete a uma inf&#226;ncia que nunca tive, idealizada, quim&#233;rica, que desperta uma saudade de algo apenas sonhado e jamais vivido concretamente.</p><p>Ap&#243;s desfrutar da refei&#231;&#227;o, levanto-me, empurrando repentinamente a cadeira para tr&#225;s, pego um livro de capa vermelha na estante cujo t&#237;tulo me escapa, e saio ent&#227;o de casa, atravessando a porta pesada de madeira maci&#231;a, para andar pensativo pelas ruas de terra, ou pelo gramado verde, dirigindo-me para o campo aberto. O horizonte est&#225; carregado de cores de tons avermelhados, do vermelho vivo &#224; p&#250;rpura.</p><p>N&#227;o encontro ningu&#233;m pelo caminho, mas isso n&#227;o me desencoraja de prosseguir: h&#225; caminhos que s&#227;o melhor percorridos a s&#243;s, penso. Deixo para tr&#225;s a cidade e, depois de algum tempo caminhando, chego a um riacho que corre com suavidade pr&#243;ximo a um pequeno bosque cujas &#225;rvores envolvem uma humilde igreja, bela e simples, de tijolo &#224; vista e com uma parte do teto em forma triangular, apontando para o c&#233;u. Sei de algum modo que ali &#233; comum estarem reunidas muitas pessoas, mas naquele momento tudo est&#225; calmo e eu entro sozinho naquele templo, que est&#225; aberto e encontra-se limpo e muito iluminado pela luz do sol que penetra atrav&#233;s dos vitrais coloridos - ainda &#233; a hora do entardecer, a noite demora a chegar. Sento-me num dos bancos de madeira e permane&#231;o em sil&#234;ncio, em tranquila expectativa.</p><p>Depois de algum tempo, um homem aproxima-se com passos lentos e firmes e posta-se ao meu lado, permanecendo em p&#233;, de frente para o altar. Temo instintivamente olhar diretamente para ele, mas percebo com o canto dos olhos suas vestes muito brancas, seu cabelo e sua barba negros, abundantes, levemente despenteados, e o seu sorriso cheio de bondade. Uma grande paz transborda em mim e tenho a impress&#227;o de que finalmente encontrei o que estava procurando.</p><p>Fico ali em sil&#234;ncio, at&#233; que anoitece e eu percebo que outras pessoas come&#231;am a entrar naquele local, todas muito bem vestidas, calmas, em n&#250;mero cada vez maior, sempre em sil&#234;ncio. Em frente ao altar da igreja reparo que h&#225; uma mesa sobre a qual descansa uma garrafa de vinho e ta&#231;as prateadas, com a boca para baixo. Vou at&#233; ali e sirvo-me: o vinho, muito vermelho, escorre suave at&#233; preencher um pouco mais da metade da ta&#231;a. Bebo ent&#227;o do vinho e percebo, instintivamente, que ele me alegra sem embriagar. Saio em dire&#231;&#227;o ao exterior da igreja e fico a contemplar a noite estrelada &#8211; o sol j&#225; se p&#244;s h&#225; algum tempo e o c&#233;u noturno, com seu luar brilhante e muito estrelado, envolve-me como num abra&#231;o e eu tudo compreendo num vislumbre, e tudo faz sentido.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os benefícios de aprender a programar]]></title><description><![CDATA[Lembro-me que, quando tentei aprender latim h&#225; mais de dez anos (plano que infelizmente tive de abortar para aguardar melhor oportunidade), li no pref&#225;cio de Napole&#227;o Mendes de Almeida &#224; sua cl&#225;ssica Gram&#225;tica Latina a promessa de que aprender latim me faria ter facilidade n&#227;o s&#243; para dominar as l&#237;nguas cl&#225;ssicas e neolatinas, mas tamb&#233;m para aprender matem&#225;tica, l&#243;gica e todas as demais ci&#234;ncias.]]></description><link>https://wagnercastro.substack.com/p/os-beneficios-de-aprender-a-programar</link><guid isPermaLink="false">https://wagnercastro.substack.com/p/os-beneficios-de-aprender-a-programar</guid><dc:creator><![CDATA[wagner castro]]></dc:creator><pubDate>Sun, 22 Feb 2026 19:48:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5VHS!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fba2998e7-c540-4fd8-b6c4-31e337b55c59_144x144.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Lembro-me que, quando tentei aprender latim h&#225; mais de dez anos (plano que infelizmente tive de abortar para aguardar melhor oportunidade), li no pref&#225;cio de Napole&#227;o Mendes de Almeida &#224; sua cl&#225;ssica <a href="https://www.amazon.com.br/Gram%C3%A1tica-Latina-Napoleao-Mendes-Almeida/dp/8502003070/ref=sr_1_1?crid=1Z2I1E0WOA6WB&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.AYfcGNl79Mpxbi-h6DYoKX_Fpi2wXT7LV3N_N1MBoRrRlDsr3XwB_-WWY5NMO7vOQe7Ni-ILnrhUJ-raurB-eWX6nK1jYthI0PLrk7FHDZOsZ_62Ot7hIquqiKghOVem37k11KNMCj-xfual_IDzzeedSfrxQJXc0CClHucZnVKCU6pJDNJMBokj0NpOYM6vSGQddgRhbDq5nGjKAGWHxUXPvcaHkXZRngwNC6Oa9Xc.ZhDoGHrRvRfDIyC_MFz7qiYxEUZGto2onN5xUz2EXQk&amp;dib_tag=se&amp;keywords=gramatica+latina+napoleao+mendes+de+almeida&amp;qid=1771108434&amp;sprefix=gramatica+latina%2Caps%2C250&amp;sr=8-1">Gram&#225;tica Latina</a> a promessa de que aprender latim me faria ter facilidade n&#227;o s&#243; para dominar as l&#237;nguas cl&#225;ssicas e neolatinas, mas tamb&#233;m para aprender matem&#225;tica, l&#243;gica e todas as demais ci&#234;ncias. Pareceu-me na &#233;poca um exagero - o que pude confirmar com o passar dos anos. N&#227;o que aprender latim n&#227;o seja &#243;timo para facilitar o acesso aos cl&#225;ssicos (diz-se que Voltaire afirmava que valia a pena aprender latim apenas para ler a Eneida no original, tal a beleza dos versos de Virg&#237;lio), e &#233; claro que quem quer que adquira o h&#225;bito de estudo e leitura em uma disciplina como o latim ter&#225; alguma facilidade para aprender qualquer outra coisa, t&#227;o logo se interesse por mudar de &#225;rea de estudos. No entanto, n&#227;o se pode esquecer o princ&#237;pio de especificidade: se voc&#234; quer aprender matem&#225;tica, deve estudar matem&#225;tica e n&#227;o latim; ou seja, aprender latim n&#227;o &#233; &#8220;a&#8221; solu&#231;&#227;o para todos os seus problemas intelectuais. </p><p>Posteriormente tive contato com essa ideia - a de que h&#225; alguma disciplina ou &#225;rea de estudos capaz de &#8220;abrir as portas da intelig&#234;ncia&#8221; e facilitar o acesso a todas as demais ci&#234;ncias - em outros lugares: j&#225; vi, dentre crist&#227;os e judeus, pessoas com uma vis&#227;o m&#237;stica do hebraico; j&#225; ouvi quem afirmasse que o estudo da l&#243;gica continha o segredo para pensar bem; diz-se que Heidegger achava o grego superior &#224;s demais l&#237;nguas com rela&#231;&#227;o &#224; express&#227;o filos&#243;fica&#8230;</p><p>N&#227;o quero cair, portanto, no erro de afirmar que aprender a programar ser&#225; o mapa para alcan&#231;ar o Santo Graal da intelig&#234;ncia. Li em algum lugar que o grande Robert Alter, um dentre os meus cr&#237;ticos liter&#225;rios e tradutores preferidos, escreve &#224; m&#227;o e necessita de que suas secret&#225;rias digitem no computador os seus livros; o que prova que n&#227;o &#233; sequer necess&#225;rio aprender a ligar um computador para se ter uma vida intelectual aut&#234;ntica, sem que nada lhe falte. </p><p>Mesmo assim, vou listar alguns benef&#237;cios concretos que tenho percebido ao longo dos &#250;ltimos dois anos em que tenho aprendido a programar:</p><ol><li><p><strong>Enxergar os dados de forma diferente.</strong></p><p></p><p>Independentemente de em qual &#225;rea de estudos voc&#234; atua, se voc&#234; lida com dados - sejam hist&#243;ricos, liter&#225;rios ou de qualquer ordem -, aprender o b&#225;sico da linguagem de programa&#231;&#227;o Python e a utilizar as bibliotecas Pandas, Matplotlib e ydata-profiling far&#225; voc&#234; enxergar de forma diferente os dados. Por exemplo, um dos autores de <a href="https://www.amazon.com/Six-Septembers-Mathematics-Patrick-Juola/dp/1609621115">Six Septembers: Mathematics for the Humanist</a>, que &#233; professor de literatura, utiliza programa&#231;&#227;o e matem&#225;tica para analisar textos de literatura, seja para averiguar a autoria de textos antigos, seja para responder perguntas como: &#8220;Este determinado autor tem fama de escrever par&#225;grafos muito longos, ser&#225; que uma an&#225;lise matem&#225;tica dos seus textos confirma essa hip&#243;tese?&#8221;. </p><p></p></li><li><p><strong>No exerc&#237;cio da criatividade. </strong></p><p></p><p>&#201; um fato que, com o &#8220;vibe coding&#8221;, qualquer um pode falar em linguagem natural e, com a ajuda de Intelig&#234;ncia Artificial, construir softwares complexos, de sites a aplicativos, com uma facilidade que n&#227;o existia no passado. (Sabe-se que, se a inten&#231;&#227;o &#233; construir um software profissional, a IA falha bastante, principalmente em quest&#245;es de seguran&#231;a, de modo que at&#233; o momento os agentes de IA s&#227;o apenas ferramentas a serem utilizadas pelos programadores.) No entanto, para o exerc&#237;cio da criatividade, acredito que aprender a programar, mesmo para quem n&#227;o pretenda trabalhar com programa&#231;&#227;o, pode ser muito estimulante. Comparo, neste caso, com o aprendizado de m&#250;sica. </p><p>Nas horas vagas, quando me sinto inspirado, gosto de compor m&#250;sicas como <a href="https://www.bandlab.com/post/eec8c7c1-dfe1-f011-819b-6045bd3096b1">esta</a> e, por outro lado, tenho escutado nos &#250;ltimos dias m&#250;sica composta com a ajuda de IAs, como estas <a href="https://www.youtube.com/watch?v=jQXrGYb1kIc&amp;list=RDjQXrGYb1kIc&amp;start_radio=1">aqui</a>. Talvez seja verdade que compor m&#250;sicas com a ajuda de IA tamb&#233;m seja uma forma de exercitar a criatividade, mas tenho certeza que o modo de compor sem IA &#233; muito diferente, ainda que os resultados sejam os mesmos, ou mesmo que a m&#250;sica feita por IAs seja de qualidade superior.</p><p> </p></li><li><p><strong>Na compreens&#227;o do mundo atual.</strong></p><p></p><p>Acredito que h&#225; disciplinas que s&#227;o atemporais e outras que t&#234;m uma import&#226;ncia moment&#226;nea, mas mesmo assim crucial, na compreens&#227;o do mundo atual. Teologia, filosofia cl&#225;ssica e literatura pertencem ao primeiro tipo; enquanto que as disciplinas que pertencem ao segundo tipo costumam variar: se voc&#234; vivesse nos sec. XVII, XIX ou na transi&#231;&#227;o e no come&#231;o do XX, estudar f&#237;sica newtoniana, biologia, l&#243;gica ou f&#237;sica qu&#226;ntica e relatividade seriam relevantes para se entender o que se estava discutindo nos meios cient&#237;ficos daqueles tempos. Pois bem, no momento atual aprender o b&#225;sico de programa&#231;&#227;o - e suas irm&#227;s: matem&#225;tica e l&#243;gica - pode ajudar a entender o alcance, e a limita&#231;&#227;o tamb&#233;m, da computa&#231;&#227;o e da intelig&#234;ncia artificial. </p><p>No momento, estou tentanto construir uma m&#225;quina virtual (um simulador da arquitetura de um computador simples, baseado neste <a href="https://www.jmeiners.com/lc3-vm/">tutorial</a>). Isto me faz perceber o qual genial &#233; a inven&#231;&#227;o da computa&#231;&#227;o; e tamb&#233;m entender os limites desta cria&#231;&#227;o, o que torna a ideia de que um computador ou uma arquitetura de IA possa pensar como um ser humano um tanto rid&#237;cula para mim (como Camilo Chac&#243;n Sartori discute com detalhes t&#233;cnicos neste <a href="https://arxiv.org/abs/2505.19353">artigo</a>.</p></li></ol><p></p><p>Em todos esses casos, podemos falar do aprendizado de programa&#231;&#227;o como um &#8220;letramento digital&#8221; (&#8220;Digital literacy&#8221;, nas palavras de Winnie Soon e Geoff Cox), que pode trazer muitos benef&#237;cios, sem que isso seja algo m&#237;stico ou obrigat&#243;rio para todos. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Minha experiência com ferramentas de IA]]></title><description><![CDATA[A cria&#231;&#227;o dos modelos de IA foi genial, j&#225; o conte&#250;do produzido por eles nem tanto.]]></description><link>https://wagnercastro.substack.com/p/minha-experiencia-com-ferramentas</link><guid isPermaLink="false">https://wagnercastro.substack.com/p/minha-experiencia-com-ferramentas</guid><dc:creator><![CDATA[wagner castro]]></dc:creator><pubDate>Sat, 07 Feb 2026 17:58:35 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kkXm!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbdbd6b75-9bd9-4846-921a-d31ea7bcdc43_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Um conhecido meu me contou faz algum tempo como os m&#233;dicos diagnosticaram o problema que ele tinha - neuropatia por compress&#227;o do nervo pudendo - com a ajuda de alguma ferramenta de IA (n&#227;o me lembro se foi o chatGPT ou algo mais espec&#237;fico). De fato, o problema do meu conhecido deve ser dif&#237;cil de descobrir, j&#225; que se trata de algo n&#227;o muito comum, com sintomas inespec&#237;ficos e que muitas vezes n&#227;o &#233; detectado por exames de imagem. Em algumas &#225;reas da medicina, como a radiologia, estudos indicam que o melhor diagn&#243;stico &#233; feito quando m&#233;dicos experientes analisam os exames com o aux&#237;lio de ferramentas de IA especializadas.</p><p>No meu trabalho como fisioterapeuta, entretanto, a minha experi&#234;ncia com o uso de ferramentas de IA &#233; praticamente nula: os pacientes em geral j&#225; chegam com um diagn&#243;stico definido (AVC, les&#227;o medular, amputa&#231;&#227;o de membros inferiores etc.) e, <em>Deo Gratias,</em> com tantos anos trabalhando na &#225;rea, na maioria das vezes consigo avaliar qual o melhor tipo de &#243;rtese ou se o paciente precisa de bengala, muleta ou andador, ou que ajustes de alinhamento uma pr&#243;tese precisa, por <em>Gestalt</em>, apenas olhando como o paciente anda, ou, se n&#227;o consegue andar, raciocinando a partir do exame f&#237;sico para entender o porqu&#234; da dificuldade e se ser&#225; poss&#237;vel ou n&#227;o super&#225;-la. N&#227;o consigo imaginar uma ferramenta de IA que consiga avaliar isso apenas analisando o v&#237;deo de o paciente andando, pois s&#227;o informa&#231;&#245;es muito sutis. Talvez, se n&#227;o h&#225; ainda, seja poss&#237;vel desenvolver uma ferramenta que colete as for&#231;as exercidas pelo paciente ao andar sobre o solo e, a parir dessas informa&#231;&#245;es, consiga ajudar a tra&#231;ar um plano terap&#234;utico para cada paciente. Mas isso provavelmente seria financeiramente custoso, devendo ser usado em ambientes acad&#234;micos para dar um <em>feedback</em> aos novos profissionais at&#233; que eles adquiram um olhar terap&#234;utico mais agu&#231;ado (melhor ainda seria se todos os novos profissionais pudessem acompanhar de perto um profissional mais experiente, que j&#225; adquiriu essas habilidades, mas sabemos que isso n&#227;o acontece na maioria das vezes).</p><p>Al&#233;m disso, muitas vezes ao conversar com o paciente e fam&#237;lia sobre o que pretendo tra&#231;ar como meta terap&#234;utica -  e isto porque a opini&#227;o deles sobre uma determinada interven&#231;&#227;o &#233; essencial - &#233; comum perceber por pequenos detalhes (uma express&#227;o facial, o tom de voz) se o paciente tem maior ou menor chance de aderir &#224;quilo que &#233; proposto ou se &#233; melhor buscar outras op&#231;&#245;es de tratamento. Creio que uma ferramente de IA s&#243; perceberia essas coisas se eu lhe dissesse, mas nesse caso n&#227;o haveria benef&#237;cio em utiliz&#225;-la. N&#227;o me entenda mal, &#233; claro que eu tamb&#233;m erro e tenho d&#250;vidas, mas a IA tampouco &#233; perfeita, como sabemos. Na pr&#225;tica, os colegas com quem trabalho usam apenas o chatGPT para revisar a ortografia de alguma evolu&#231;&#227;o mais longa antes de inseri-la no prontu&#225;rio. </p><p>Comparo isso com a minha experi&#234;ncia com programa&#231;&#227;o. Estou cursando uma gradua&#231;&#227;o em An&#225;lise e Desenvolvimento de Sistemas, com vistas a migrar para a &#225;rea de TI, quem sabe aproveitando o que aprendi trabalhando na &#225;rea da sa&#250;de. Como o meu objetivo &#233; aprender, procuro limitar o uso de LLMs, estudando por livros, lendo as apostilas da faculdade, tentando escrever c&#243;digo que eu realmente entenda e usando alguma LLM apenas para revisar um c&#243;digo que n&#227;o &#8220;roda&#8221; por algum problema de sintaxe, ou para dar uma ideia quando as minhas acabam sobre o pr&#243;ximo passo a ser tomado em um projeto. Mesmo assim, com todos estes cuidados, mais de uma vez tive de reiniciar um projeto ao perceber que &#8220;perdi a m&#227;o&#8221; e que a ferramenta de IA que eu estava usando criou quase tudo e eu n&#227;o havia aprendido nada. Penso que talvez a diferen&#231;a seja que eu ainda estou aprendendo, e que uma pessoa que seja um desenvolvedor experiente tenha menos dificuldade com isso.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!jnhb!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F00519d6d-65cc-4349-bdb4-8ab98ad1f09e_271x385.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!jnhb!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F00519d6d-65cc-4349-bdb4-8ab98ad1f09e_271x385.jpeg 424w, 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Aguardando ansiosamente chegar da Espanha este livro.</figcaption></figure></div><p></p><p>Mesmo assim, a IA tem me ajudado ao menos em uma coisa nesta &#225;rea de estudos: economizar tempo. Tenho tentado postar conte&#250;do t&#233;cnico que sintetizo a partir dos meus estudos no linkedin, para me ajudar a conhecer mais pessoas que trabalham na &#225;rea de tecnologia. Recentemente, por exemplo, sintetizei os principais algoritmos de Machine Learning que havia estudado neste <a href="https://www.amazon.com.br/Python-Para-Data-Science-Descomplicado/dp/6555203374/ref=sr_1_1?crid=2AW8JRU7PM9FA&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.5esnztYDXy3Mmrj0Dojr7_UrlfEV1hShTNz_oDGUNem_6XzQMxub8RwhQuf5yUlJrbwRaJqmY3y8W15X5ZA3HoSxhw-W4ocDMIry4oN3uzZWBn7YXbjShLQmyJ77V9tAWNici15qBsqGS6wTDknOlK3ao06qnHf-2i4qtIxqbnlarmYDK9pSVxDINIj0IjuusUdOLCFrCi1oWKLDFFhX-6sf2pl9bKdmvz2LBbJQS_oRicI3G5r2rmPfBYL4jHoaxA9wLyxzVOeIgii8Kl0A5fhNejGYTFcFKJOkxxmh0wE.IDvXfNsWFUD6D_Vq2FeTxMPT35Nkq8mOiwBxNDjMAA4&amp;dib_tag=se&amp;keywords=python+para+data+science+e+machine+learning+descomplicado&amp;qid=1770483913&amp;sprefix=python+descom%2Caps%2C233&amp;sr=8-1">livro</a> e n&#227;o queria perder tempo editando o texto para deix&#225;-lo mais &#8220;linkedin friendly&#8221;, de modo que usei - e tenho usado - sem pudor algum, um LLM para editar o conte&#250;do que publico no linkedin. O conte&#250;do foi pensando totalmente por mim, mas o formato - que, neste caso, n&#227;o &#233; o mais importante - foi dado pela IA.</p><p>Pe&#231;o ao leitor a paci&#234;ncia de ler uma terceira e &#250;ltima experi&#234;ncia minha com a IA. Sou tamb&#233;m escritor, tendo dois livros auto-publicados, um de <a href="https://www.amazon.com.br/Vida-Espiritual-Wagner-Mello-Castro/dp/6558994429/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=18IJLCY1Y5NCG&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.RK4FgJ3ulLmJv8h_wuNa0cAviFJjQRX27QPopyf2H0bF0Gw6PkzSS4UYpxOWwKCUCz1-f02wA5m0YFD55Sn1fvY9fBP_HZMZ5jVO7opxBgjegQm5WZ278Ik-faKYm0zBXmf05jimQRoOai43uY0dOVwoNsNBJX2nxN8PsQLCbTG35OZDLF5N5SUSTrt-O2AC7Sn0cW7OiEoAukafQWvxgdxMumc-m72qHpZJSQ5PXziHAoWLqVwFvrCd-KryIXZ1UQu7Af2qPztooHgT9Nq70vtgJVvf0svFsyUjq8Hoejk.-BAQKX5_Mp8eVt8dx1eiqPWnPhdNuWD_SztK3BXJ7LI&amp;dib_tag=se&amp;keywords=a+vida+espiritual+wagner&amp;qid=1770484641&amp;sprefix=a+vida+espiritual+wagne%2Caps%2C236&amp;sr=8-1">ensaios</a> e outro de <a href="https://www.amazon.com.br/Poesia-Prof%C3%A9tica-Wagner-Mello-Castro-ebook/dp/B0D2YJG4SP/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=1B7MZK26ENR8G&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.-L8cXkxuRDxatqkg4Yer8uUuGPQomb6IgGeDEWabqmLGjHj071QN20LucGBJIEps.aMgWwIr8QV-HS0Hc3WBeNUBhjglqc4EMohHLd4p3AJQ&amp;dib_tag=se&amp;keywords=poesia+profetica+wagner&amp;qid=1770484686&amp;sprefix=poesia+profetic+wagner%2Caps%2C198&amp;sr=8-1">poesia</a>, e, agora que a vida voltou a dar-me algum tempo, estou tentando escrever mais aqui no Substack, a ver se, quem sabe, o algoritmo pode me divulgar um pouco&#8230; Para isso escolhi publicar, se poss&#237;vel diariamente, textos curtos nas <em>notes </em>e tem sido um exerc&#237;cio liter&#225;rio muito interessante: elaboro alguma ideia tirada de algum dos meus livros ou escritos que tenho guardado, transformo-a em um formato de no m&#225;ximo duas frases curtas e publico, ou ent&#227;o escolho algum poema curto ou frase predileta para publicar e entremear com meus textos. </p><p>Para diversificar o formato de publica&#231;&#227;o, esses dias pedi ao chatGPT que elaborasse alguma imagem de fundo para poemas e frases que gosto, como esta aqui, da Clarisse Lispector, que usei como ep&#237;grafe de um dos cap&#237;tulos de meu livro de ensaios:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kkXm!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbdbd6b75-9bd9-4846-921a-d31ea7bcdc43_1024x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kkXm!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbdbd6b75-9bd9-4846-921a-d31ea7bcdc43_1024x1024.png 424w, 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data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/bdbd6b75-9bd9-4846-921a-d31ea7bcdc43_1024x1024.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1024,&quot;width&quot;:1024,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:1808124,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://wagnercastro.substack.com/i/187207951?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbdbd6b75-9bd9-4846-921a-d31ea7bcdc43_1024x1024.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>O leitor h&#225; de concordar que n&#227;o &#233; nada genial e muito menos original, mas, num formato em que a palavra escrita &#233; o mais importante e num momento em que eu n&#227;o tinha a inten&#231;&#227;o de perder tempo criando uma imagem cujo conte&#250;do fosse mais pessoal e sofisticado, foi &#243;timo usar uma IA para me facilitar o trabalho. (Espero, queira Deus, numa pr&#243;xima postagem falar sobre como o chatGPT teve dificuldade para entender um poema que mesclava assuntos diversos.) </p><p>Em s&#237;ntese, se o seu objetivo &#233; aprender profundamente sobre um determinado assunto ou escrever algo que expresse uma necessidade interior de ordenar e de tornar pessoal as suas experi&#234;ncias e leituras, usar uma LLM para gerar o conte&#250;do seria autocontradit&#243;rio, n&#227;o &#233; mesmo? (Que o leitor perceba que este conte&#250;do, bem ou mal, foi totalmente gerado por mim.)</p><p>Mas, depois de esses objetivos terem sido atingidos, n&#227;o vejo nada de mais em utilizar uma ferramenta de IA para formatar o conte&#250;do de acordo com as necessidades do momento, quando elas n&#227;o expressam uma real necessidade interior, ou quando &#233; necess&#225;rio produzir quantitativamente mais.</p><p>Ou, pelo menos essa &#233; a minha experi&#234;ncia. E a sua? </p><p>  </p><p></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Comentários sobre o filme Dias Perfeitos, de Wim Wenders]]></title><description><![CDATA[Esta semana aproveitei a entrada do filme Dias Perfeitos, do diretor alem&#227;o Wim Wenders, no cat&#225;logo da Netflix, para rev&#234;-lo pela segunda vez.]]></description><link>https://wagnercastro.substack.com/p/comentarios-sobre-o-filme-dias-perfeitos</link><guid isPermaLink="false">https://wagnercastro.substack.com/p/comentarios-sobre-o-filme-dias-perfeitos</guid><dc:creator><![CDATA[wagner castro]]></dc:creator><pubDate>Sun, 05 Oct 2025 21:10:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5VHS!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fba2998e7-c540-4fd8-b6c4-31e337b55c59_144x144.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Esta semana aproveitei a entrada do filme <em>Dias Perfeitos, </em>do diretor alem&#227;o Wim Wenders, no cat&#225;logo da Netflix, para rev&#234;-lo pela segunda vez.</p><p>&#201; o tipo de filme que provoca muitas reflex&#245;es - inclusive h&#225; uma palestra da fil&#243;sofa L&#250;cia Helena Galv&#227;o no youtube que eu recomendo (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=UbZJqwYrGcY">aqui</a>). Farei algumas reflex&#245;es sobre o filme  ap&#243;s uma breve sinopse. </p><p>A obra de Wim Wenders trata de acompanhar a rotina de Hirayama (interpretado por Koji Yakusho), um trabalhador cujo of&#237;cio &#233; limpar banheiros em T&#243;quio. O que poderia parecer uma premissa mon&#243;tona pela sua simplicidade deu origem a um dos melhores filmes que j&#225; vi na vida (junto com <em>Aurora</em>, de F. W. Murnau; <em>Os vivos e os mortos, </em>de John Huston; e <em>O leopardo, </em>de Visconti).</p><p>Para in&#237;cio de conversa, passo a refletir n&#227;o exatamente sobre o filme, mas <em>a partir dele. </em>Assistir <em>Dias Perfeitos </em>me fez ter mais certeza sobre algo que eu sempre pensei sobre o cinema, que &#233; o fato de que um filme, para elevar-se &#224; altura de obra de arte e estar acima do mero entretenimento (nada contra filmes de entretenimento, &#233; claro) n&#227;o precisa necessariamente ser dif&#237;cil de entender, complexo, com di&#225;logos &#8220;inteligentes&#8221; e enquadramentos experimentais. N&#227;o. Na verdade, apesar de muitas obras de arte grandiosas serem realmente complexas e dif&#237;ceis de entender (me vem &#224; mente agora, na literatura,  o <em>The Waste Land, </em>de T. S. Eliot), ainda prefiro aquelas obras que, se n&#227;o me engano Umberto Eco disse, s&#227;o feitas &#8220;em camadas&#8221;, ou seja, aquelas obras de cuja frui&#231;&#227;o ningu&#233;m sai sem entender nada, ainda que n&#227;o se entenda tampouco tudo o que ela tem a nos dizer.  </p><p>O segundo ponto que eu gostaria de chamar a aten&#231;&#227;o &#233; que, nas artes (ao menos no cinema e na literatura, se n&#227;o nas demais) a execu&#231;&#227;o &#233; tudo: mais vale uma ideia simples bem executada do que algo grandioso executado sem pessoalidade e inten&#231;&#227;o, o que comprova a mir&#237;ade de <em>blockbusters</em> de alta rotatividade que povoa os <em>streamings </em>atuais. Obviamente, fa&#231;o a ressalva de que simples n&#227;o quer dizer f&#225;cil. </p><p>Mas &#233; acerca do filme propriamente que eu gostaria de falar. Um efeito que ele me causou foi que, depois de rev&#234;-lo, passei alguns dias mais concentrado nas pequenas coisas que comp&#245;em o cotidiano: o ato de lavar lou&#231;as, coar um caf&#233;, recolher o lixo, tomar banho, preencher um documento etc. &#201; uma rea&#231;&#227;o que o filme nos provoca de modo intencional, pois Wim Wenders faz quest&#227;o de reproduzir com detalhes a rotina de Hirayama desde o despertar at&#233; os seus sonhos (que reproduzem o <em>Komorebi, </em>nome japon&#234;s para o contraste entre a luz do sol e as sombras provocadas pelas copas das &#225;rvores que a filtram -  a&#237; h&#225; algo de experimental, mas nada que atrapalhe a compreens&#227;o do filme por quem n&#227;o conhe&#231;a este termo), passando pelos encontros casuais que ele tem durante o dia, pelo seu traabalho limpando banheiros e at&#233; mesmo pelos pequenos gestos que comp&#245;em o dia a dia de qualquer pessoa . Forma e sentido se encontram, pois o filme retrata o fato de Hirayama dedicar total aten&#231;&#227;o ao que est&#225; fazendo, n&#227;o importa qu&#227;o desimportante pare&#231;a. N&#243;s, ao contr&#225;rio do personagem do filme, em geral temos muita dificuldade de estar presentes no que estamos fazendo: durante o trabalho estamos pensando no que faremos na hora de folga, e durante a folga ficamos a pensar no trabalho&#8230; N&#227;o admira que estejamos sempre t&#227;o ansiosos, t&#227;o divididos - a tend&#234;ncia &#233; nunca estarmos realmente presentes no que a vida est&#225; a nos proporcionar. </p><p>Tenho tentado este exerc&#237;cio: se estou a comer, ou a escovar os dentes, procuro me concentrar plenamente no que estou fazendo, tal qual Hirayama, que parece limpar banheiros, comer ou observar o c&#233;u com a mesma atitude contemplativa. </p><p>Outra coisa que me chamou a aten&#231;&#227;o no filme foi a simplicidade do personagem. Duas frases me v&#234;m &#224; mente sobre este tema: &#8220;S&#243; consigo a simplicidade com muito trabalho&#8221;, da Clarice Lispector e, do fil&#243;sofo Peter Kreeft, &#8220;a mais simples conversa manifesta o mais alto mist&#233;rio&#8221;. O fato &#233; que tornar-se uma pessoa simples consiste em se aprimorar a capacidade de penetra&#231;&#227;o da intelig&#234;ncia para buscar a riqueza, a profundidade e a complexidade que h&#225; mesmo no mais simples aspecto da vida, passando portanto a n&#227;o se precisar de &#8220;novidades&#8221; para se estar contente (da&#237; o fato de que a pessoa simples &#8220;contenta-se com pouco&#8221;). &#192;s vezes fico a meditar em quantos tratados de fisiologia existem para retratar o ato mais banal de inspirar e expirar o ar, ou <em>mutatis mutandis, </em>quantos tratados de bot&#226;nica h&#225; potencialmente em cada &#225;rvore, ou de psicologia em cada relacionamento e assim por diante. </p><p>No entanto, a vida nos parece tantas vezes sem gra&#231;a pois perdemos facilmente esse espanto, essa admira&#231;&#227;o diante da exist&#234;ncia (e Arist&#243;teles dizia que a filosofia come&#231;a com o espanto). Como uma crian&#231;a, Hirayama parece achar gra&#231;a em tudo - e n&#243;s, atrav&#233;s das lentes de Wim Wenders, mergulhamos nesse mundo t&#227;o cheio do mais alto mist&#233;rio que &#233; a pr&#243;pria vida. </p><p>Para finalizar - espero despertar em algu&#233;m a vontade de ver o filme -, fico a pensar no quanto bondade e contentamento est&#227;o conectados. Ouvi dizer que o diretor alem&#227;o, ao conceber a obra, pensou em retratar a vida de um pacifista. E n&#227;o &#233; de admirar que, para ser pacifista, Hirayama tenha de ser tamb&#233;m algu&#233;m que pratique a arte do contentamento. Ora, por experi&#234;ncia pr&#243;pria sabemos o qu&#227;o dif&#237;cil &#233; ser bondoso enquanto se sente que a vida foi injusta conosco, n&#227;o nos retribuindo conforme nossos m&#233;ritos e esfor&#231;os - reais ou imagin&#225;rios. Acerca disto escrevi em meu di&#225;rio filos&#243;fico-espiritual, em anota&#231;&#227;o sem data: </p><p></p><blockquote><p>Quando se perdem todas as esperan&#231;as naquilo que a vida (o conjunto de circunst&#226;ncias e pessoas que nos cercam) pode nos dar, ent&#227;o, passada a primeira rea&#231;&#227;o em que nos entregamos &#224; dor, &#224; apatia e ao desespero, talvez possamos adotar uma nova postura perante o destino que nos cabe enfrentar, uma postura mais ativa em que assumimos a responsabilidade de dar mais do que recebemos. E ao adotarmos esta nova perspectiva, talvez possamos perceber que em geral temos recebido muito mais do que jamais poder&#237;amos retribuir, e que o sentimento de que somos uma v&#237;tima inerte nas m&#227;os do destino sempre fora uma ilus&#227;o, uma mentira &#8211; talvez a maior mentira de todas.</p></blockquote><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[The illuminating power of education - Part I]]></title><description><![CDATA[Why should someone dedicate time to learn something at all?]]></description><link>https://wagnercastro.substack.com/p/the-illuminating-power-of-education</link><guid isPermaLink="false">https://wagnercastro.substack.com/p/the-illuminating-power-of-education</guid><dc:creator><![CDATA[wagner castro]]></dc:creator><pubDate>Sat, 27 Sep 2025 20:32:42 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5VHS!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fba2998e7-c540-4fd8-b6c4-31e337b55c59_144x144.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>(As a Brazilian guy, in this post I will try a new experiment: to write in English. I hope this won&#8217;t be too messy for English speakers, and no, I didn&#8217;t use any LLM devices to write, or even to translate for me this text.)</p><p></p><div><hr></div><p>Until some years ago, it was very obvious the reason why someone should dedicate time, money and effort to study, since there was an almost direct correlation between years dedicated to formal education and socioeconomic status. </p><p>Well, I think it is very clear - at least in places like Brazil, even though this is a change that took place in every nation in the West - that this is no more true. Formal education, nowadays, is something that you can&#8217;t ignore if you want to have a &#8220;better life&#8221; (usually in economical terms), but, <em>per se, </em>graduate titles won&#8217;t ensure any stable job - with some exceptions of course, like the medical profession and others, at least here in Brazil.</p><p>Thinking about this, maybe it is time to reconsider the real reason - or reasons - why should someone acquire culture. For the sake of brevity, in this post I will talk about what I think it is one of the main reasons why someone should search some knowledge and that is what I will call the &#8220;illuminating power of education&#8221;. I&#8217;ll explain.</p><p>Everybody already had the experience of looking to some object of the world - the stars in the sky, a plant, a rock, a poem, a music or a film etc. - and just don&#8217;t have the power to see nothing very profound. That object just seems to be &#8220;opaque&#8221; for the person that look to it. Or, what is quite more common, you foresee that the object you contemplate has something special - for example, that movie that touched you in a different way, but you don&#8217;t know exactly why&#8230; - even when you don&#8217;t have the capacity to tell what it is. Then, you meet someone that studied that kind of object, an astronomer, a biologist or a literary expert and he or she just illuminate you about aspects of that matter that you couldn&#8217;t even imagine there exists. </p><p>For me, education - not only formal education, but mainly &#8220;self-education&#8221; - had this illuminating power, but not only with respect to some kind of aspect of life, be it the natural world or the arts, but with respect to all that encompasses it. Life, for me, just gained color and depth as I studied and learned, building what Antonin Sertillanges called, as the name for his famous book, the &#8220;intellectual life&#8221;. Of course, the process isn&#8217;t done, and of course this doesn&#8217;t mean that, when I look to some situation outside or feeling inside me, I always have a clear explanation of everything. It just means that life now is for me much more happy, clear and rich than it was some years ago. </p><p>Looking back, I sometimes think in what would be the content that someone should study to enjoy this &#8220;illuminating power" of education - maybe because I want to share it with others that have the same necessities, maybe because I need to share it with myself. And my partial conclusion is that, even knowing that it is very beneficial to study the &#8220;hard sciences&#8221; (math, biology, physics etc.), as Sertillanges advise himself, the study of humanities can&#8217;t be replaced for that matters. </p><p>I am aware that, for some people, the study of only one subject of the &#8220;hard sciences&#8221;, be it math, geology or any other, can illuminate it all, but I really think that in general, studying one piece of reality, no matter how complicated and vast it is, won&#8217;t automatically make it easy to transpose the acquired knowledge for broader areas of life. </p><p>I think that humanities, being that literature, history and &#8220;classical philosophy&#8221; - Plato, Aristotle and their great interpreters through history, as defined this term the Mexican philosopher Ant&#243;nio Gomez Robledo -  is the field of study designed to elucidate something about life, human life to be more clear. </p><p>More to come about this, I hope soon.     </p><p> </p><p> </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O perigo da obsessão literária]]></title><description><![CDATA[De Moby Dick ao nosso Policarpo Quaresma, passando por tantos outros personagens e romances da literatura universal, h&#225; muito temos sido avisados acerca dos perigos da obsess&#227;o por um &#250;nico tipo de assunto, seja este liter&#225;rio, amoroso, existencial, passado, presente ou futuro.]]></description><link>https://wagnercastro.substack.com/p/o-perigo-da-obsessao-literaria</link><guid isPermaLink="false">https://wagnercastro.substack.com/p/o-perigo-da-obsessao-literaria</guid><dc:creator><![CDATA[wagner castro]]></dc:creator><pubDate>Sat, 02 Aug 2025 19:01:17 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5VHS!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fba2998e7-c540-4fd8-b6c4-31e337b55c59_144x144.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>De <em>Moby Dick</em> ao nosso Policarpo Quaresma, passando por tantos outros personagens e romances da literatura universal, h&#225; muito temos sido avisados acerca dos perigos da obsess&#227;o por um &#250;nico tipo de assunto, seja este liter&#225;rio, amoroso, existencial, passado, presente ou futuro. &#201; que, como dizia o fil&#243;sofo mexicano Antonio G&#243;mez Robledo, &#8220;diziam os antigos l&#243;gicos que &#8216;a mente humana funciona por contrates&#8217;&#8221;, o que faz com que o indiv&#237;duo que se fixa em um &#250;nico aspecto da realidade perca, paradoxalmente, a capacidade de compreender adequadamente este mesmo objeto que lhe escraviza e subjuga a imagina&#231;&#227;o: Leibniz j&#225; nos avisava que para compreender um &#250;nico ponto do universo ter&#237;amos de compreender o universo como um todo.</p><p>Em algum momento da vida, acredito que todos n&#243;s que amamos a escrita e a literatura j&#225; nos surpreendemos como v&#237;timas deste tipo de obsess&#227;o t&#227;o peculiar, a obsess&#227;o liter&#225;ria (e basta estudar um pouco da biografia de alguns escritores para perceber o quanto ela &#233; comum no meio liter&#225;rio). </p><p>Pois eu mesmo, meditando acerca deste tema, posso me lembrar de ao menos duas obsess&#245;es liter&#225;rias que me tentaram quando comecei a me dedicar de modo mais constante &#224; escrita: a primeira era a obsess&#227;o por querer anotar toda ideia que me parecesse vagamente interessante, com um medo desmedido de que ela se perdesse. Foram incont&#225;veis tarefas di&#225;rias e noites de sono interrompidas para anotar, em papel ou no bloco de notas do celular, aquilo que eu temia perder para o reino das oportunidades n&#227;o agarradas. J&#225; a segunda era a obsess&#227;o por revisar continuamente os textos que escrevia, sem dar um intervalo de tempo para que a mensagem que eu queria registrar amadurecesse naturalmente.</p><p>Hoje, depois de alguns anos de aprendizado, ainda que eu busque sempre anotar aquilo que me vem &#224; mente e que me pare&#231;a merecer algum desenvolvimento mais acurado, sei o qu&#227;o enganoso pode ser a percep&#231;&#227;o que temos das nossas pr&#243;prias inven&#231;&#245;es: toda ideia rec&#233;m concebida veste-se, aos nossos olhos, com o manto da genialidade e &#233; s&#243; quando a vemos sob a luz de uma cr&#237;tica mais distanciada que percebemos o seu real valor. </p><p>Quanto ao segundo perigo que mencionei, percebo como o tempo que damos a um texto para &#8220;descansar na gaveta&#8221; (na era dos computadores esta gaveta &#233;, obviamente, mental) pode lhe fazer bem, de modo que hoje costumo escrever em etapas, voltando v&#225;rias vezes ao mesmo texto, &#224; mesma ideia, e isso ap&#243;s intervalos (&#224;s vezes de meses ou mesmo anos) n&#227;o totalmente predeterminados, at&#233; que eu sinta que o trabalho est&#225; finalizado (na verdade, a rigor, o trabalho nunca estar&#225; &#8220;finalizado&#8221;, por&#233;m isto seria um outro tipo de obsess&#227;o liter&#225;ria: a busca pelo texto perfeito que nunca chega ao fim, at&#233; que o escritor morra sem ter publicado nada). </p><p>Estava a refletir sobre esse tema quando revisei um conto meu, ao qual dei o nome provis&#243;rio de &#8220;versos finais&#8221;, que deixo abaixo, na esperan&#231;a de advertir dirvertindo o leitor tentado por obsess&#245;es, liter&#225;rias ou de qualquer outro tipo. </p><p></p><h1><strong>Versos finais</strong></h1><p>Conta-se que Flaubert tinha constantes crises de nervos durante a escrita de Madame Bovary, quando a escrita n&#227;o flu&#237;a bem. &#201; interessante notar como aquilo que para alguns n&#227;o significa nada pode se tornar uma quest&#227;o de vida ou morte para outros. Pois a hist&#243;ria que vou contar trata de algu&#233;m da mesma estirpe de Flaubert, algu&#233;m para quem a confec&#231;&#227;o de alguns versos tornou-se uma quest&#227;o vital, ou ainda melhor, mortal.</p><p>Dr. Homero, desde a juventude, sempre demonstrara interesse pelos livros e, tendo sido alimentado desde tenra idade com uma riqu&#237;ssima dieta intelectual constitu&#237;da de Plat&#227;o, Arist&#243;teles, Shakespeare e tutti quanti, n&#227;o demorou a querer externalizar, em alguma obra de seu pr&#243;prio punho, o ac&#250;mulo de sentimentos e reflex&#245;es ocasionado por tantas leituras cuidadosamente meditadas, de modo que a escrita de contos, poemas, ensaios e at&#233; mesmo de um romance foram como que o florescer natural de t&#227;o f&#233;rtil semeadura sobre uma alma t&#227;o receptiva.</p><p>O mundo, no entanto, devorou impiedosamente o ardor juvenil de nosso artista amador e a incompreens&#227;o dos de fora, somada &#224; inseguran&#231;a de dentro, fez com que o desejo por escrever fosse aos poucos arrefecendo - estudos de cunho mais utilitarista, somados ao trabalho e &#224; vida familiar, soterraram de vez tudo: primeiro o romance, depois os ensaios, por &#250;ltimo os poemas e os contos. Logo tudo isso se perdeu, provavelmente jogado no lixo por alguma faxineira distra&#237;da (pois n&#227;o havia computador ainda quando o Dr. Homero escrevera todas essas obras).</p><p>O tempo passou, o nosso escritor estudou Direito, formou-se, tornou-se juiz federal, casou, teve filhos, trabalhou, envelheceu, aposentou.</p><p>Nada dura para sempre, entretanto, nem mesmo o esquecimento, de modo que muitas d&#233;cadas depois, em um dia de domingo ensolarado, no andar de cima de sua bela casa localizada em um condom&#237;nio de classe alta, o velho juiz remexia suas coisas, enquanto aguardava a fam&#237;lia (filhos e netos) chegar para o almo&#231;o, quando subitamente voou, planando pelo ar, uma folha amarelada com a encaderna&#231;&#227;o rasgada, rec&#233;m sa&#237;da do meio de um dos livros da estante. O objeto voou lentamente, planando no ar por alguns segundos e pousou no ch&#227;o. Curioso, Dr. Homero ent&#227;o inclinou-se para apanh&#225;-lo, trazendo-o em seguida pr&#243;ximo dos olhos (pois ele estava sem &#243;culos) para ver o que era: um velho poema de juventude.</p><p>Tratava-se de um soneto de cunho metaf&#237;sico &#8211; resqu&#237;cio dos estudos de filosofia &#8211; ao qual faltava uma conclus&#227;o, ou seja, os tr&#234;s versos finais (nunca ficou claro o motivo de ter restado de t&#227;o vasta obra apenas um poema inacabado, mas provavelmente foi apenas um acidente). Ao v&#234;-lo, a antiga paix&#227;o reacendeu-se no Dr. Homero, como o reencontro acidental com um caso de amor mal resolvido da mocidade costuma fazer a alguns, de modo que aos planos para a aposentadoria &#8211; fazer mais gin&#225;stica, cuidar da sa&#250;de, viajar com a esposa &#8211; ele resolveu acrescentar mais um: terminar o poema inacabado.</p><p>O Dr. Homero estava a pensar, muito concentrado, sobre esse novo plano para a aposentadoria quando foi interrompido pela esposa, que gritava ao p&#233; da escada que dava acesso ao escrit&#243;rio no segundo andar da casa:</p><p>- Desce Homero, o pessoal chegou &#8211; chamava ela carinhosa, esperando uma resposta obediente.</p><p>Ele deixou o papel em cima da escrivaninha e, meio a contragosto, desceu.</p><p>O almo&#231;o com a fam&#237;lia correu tranquilamente. A comida estava &#243;tima; as conversas, regulares, sem nenhum sobressalto. O Dr. Homero, entretanto, mal conseguia disfar&#231;ar o desejo de que tudo aquilo acabasse logo para que ele pudesse voltar ao poema de juventude para dar-lhe, como se diz, uma express&#227;o cabal. Inicialmente sorridente, com um sorriso sem gra&#231;a, o velho logo foi ficando primeiro quieto, depois circunspecto, por &#250;ltimo irritadi&#231;o.</p><p>- O pai t&#225; quieto hoje. Aconteceu alguma coisa? &#8211; perguntou o filho.</p><p>- Nada n&#227;o, filho. &#201; impress&#227;o sua...</p><p>- E a academia, t&#225; gostando?</p><p>- Sim, sim. Muito bom...</p><p>Depois de algumas horas, os netos, que eram ainda pequenos, cansaram-se e dormiram. Os pais deles, tamb&#233;m cansados, logo os tomaram nos bra&#231;os e partiram. O Dr. Homero, disfar&#231;adamente, respirou aliviado; poderia agora trabalhar no poema.</p><p>Deu um beijo na esposa, que estava lavando a lou&#231;a, e subiu para o escrit&#243;rio, fechando a porta atr&#225;s de si. Copiou os versos escritos em outra folha de papel mais nova, branquinha, e come&#231;ou a rascunhar.</p><p>- &#201; hoje que eu termino essa obra &#8211; disse para si mesmo quase euf&#243;rico.</p><p>Come&#231;ou acrescentando um primeiro verso aos tr&#234;s finais que faltavam. &#8220;Ficou muito bom&#8221;, pensou. Depois um outro verso e o &#250;ltimo. Mas este j&#225; n&#227;o rimou bem com o primeiro. Apagou tudo e recome&#231;ou. Reescreveu o primeiro verso com uma pequena altera&#231;&#227;o, depois novamente o segundo, mas faltou-lhe o arremate perfeito para concluir o poema. Tudo o que lhe veio &#224; mente foram ideias banais, sem brilho. Um leve enervamento come&#231;ou a querer tomar-lhe a disposi&#231;&#227;o.</p><p>- Que porcaria isso! &#8211; grunhiu.</p><p>No meio desta batalha art&#237;stica, a esposa come&#231;ou a chamar l&#225; de baixo. Queria que ele ajudasse a fazer n&#227;o sei o qu&#234;. Inicialmente tentou ignor&#225;-la, mas vendo que isso n&#227;o daria resultado respondeu bufando:</p><p>- Que &#233; Teresa? O qu&#234; que voc&#234; quer?</p><p>Queria que ele ajudasse a arrumar as coisas, guardar os pratos, as panelas, voltar a mesa para o lugar certo na cozinha... N&#227;o tinha jeito, teve de largar o poema e descer.</p><p>- &#201; melhor deixar pra trabalhar outra hora, com mais calma &#8211; disse baixinho, tentando se acalmar.</p><p>Ap&#243;s o t&#233;rmino da arruma&#231;&#227;o, que parecia nunca acabar, a noite j&#225; avan&#231;ara e o Dr. Homero resolveu tomar banho e preparar-se para dormir. O velho poema, no entanto, n&#227;o lhe sa&#237;a da cabe&#231;a e a vontade era de voltar ao escrit&#243;rio e passar a madrugada trabalhando, at&#233; que os versos finais ficassem prontos. Tentou resistir: deitou-se, deu o beijo de boa-noite na esposa, fechou os olhos, relaxou o corpo. O sono, por&#233;m, n&#227;o vinha. Virou para um lado, depois para o outro, at&#233; que, inquieto, levantou-se.</p><p>- Vou no escrit&#243;rio e j&#225; volto &#8211; disse para a esposa, que j&#225; dormia profundamente, cansada das atividades do dia.</p><p>N&#227;o &#233; preciso dizer que ele novamente tomou a caneta em m&#227;os e, tal qual o Beneditino do famoso poema de Bilac, p&#244;s as m&#227;os &#224; obra - trabalhou, teimou, limou, sofreu, suou. Mas, ao contr&#225;rio do personagem do poema parnasiano, o resultado do Dr. Homero foi nulo: nem Beleza, nem gra&#231;a, nem nada. S&#243; o que restou foi o papel cheio de rabiscos e rasuras e o artista esgotado.</p><p>Nos dias seguintes, Dr. Homero continuou na tentativa de burilar sua obra de arte, mas o poema, tal qual amante ofendida, parecia se vingar pelos anos de abandono. Era irredut&#237;vel a qualquer tentativa de conclus&#227;o satisfat&#243;ria &#8211; se as rimas combinavam, o sentido perdia-se; se o encadeamento de ideias ficava perfeito, o ritmo trope&#231;ava tal qual artista de circo mal ensaiado; se tudo isto ficava bom, as s&#237;labas excediam o n&#250;mero permitido...</p><p>Aos poucos, o poema foi consumindo todas as for&#231;as do Dr. Homero, pois o pobre juiz aposentado n&#227;o conseguia pensar em mais nada a n&#227;o ser na conclus&#227;o da obra. Mal trocava palavras com a esposa, com os filhos, mal comia.</p><p>- O que tem o pai? T&#225; doente? &#8211; perguntavam os filhos preocupados.</p><p>Tentaram lev&#225;-lo ao m&#233;dico, sem sucesso, pois al&#233;m de se recusar a ir, Dr. Homero ainda ficou a ponto de explodir de c&#243;lera com a preocupa&#231;&#227;o da fam&#237;lia. Para a consterna&#231;&#227;o de todos, agora a sua rotina era ficar horas trancado no escrit&#243;rio, para sair de repente, em horas impens&#225;veis - no meio da madrugada, por exemplo -, comer alguma coisa e retornar correndo para o abrigo, tal qual animal acuado pelo predador.</p><p>Ap&#243;s algumas semanas mergulhado neste labor infind&#225;vel, a esposa, que j&#225; havia se conformado com aquela situa&#231;&#227;o, subiu um dia ao escrit&#243;rio e bateu na porta para cham&#225;-lo:</p><p>- Os meninos vieram almo&#231;ar com a gente. Vai descer?</p><p>Ningu&#233;m respondeu. De in&#237;cio, ela insistiu: podia ser que ele n&#227;o tivesse ouvido, ou n&#227;o quisesse responder...; depois, apreensiva, foi abrindo a porta devagarinho.</p><p>- Homero, querido! &#8211; ela gritou, em choque, ao ver a cena inesperada: com a cabe&#231;a tombada sobre a escrivaninha, branqu&#237;ssimo, de olhos fechados, estava debru&#231;ado o poeta. Ela foi correndo at&#233; ele e tentou sacudi-lo para ver se o despertava. N&#227;o havia, por&#233;m, mais o que fazer: a obra vencera o artista.</p><p>Durante o vel&#243;rio, no qual havia poucas pessoas - al&#233;m da fam&#237;lia, alguns amigos e pessoas que ele havia ajudado durante a vida -, todos lamentavam a perda do companheiro dedicado, do bom pai de fam&#237;lia, do esposo fiel; a verdade &#233; que as &#250;ltimas semanas de indiferen&#231;a e irritabilidade n&#227;o haviam apagado da mem&#243;ria familiar e dos amigos mais chegados toda uma vida de dedica&#231;&#227;o e generosidade.</p><p>Alguns dias ap&#243;s o vel&#243;rio e o enterro, quando a vi&#250;va do Dr. Homero estava remexendo nas coisas dele que ficaram no escrit&#243;rio, em parte para planejar o que fazer com elas, em parte para matar a saudade do marido de tantas d&#233;cadas, seus olhos pousaram sobre a escrivaninha e ela viu a folha em que estava escrito, &#224; m&#227;o, o poema que consumira as &#250;ltimas for&#231;as do marido. Tomou-o nas m&#227;os lentamente, com a delicadeza de quem pega algo muito fr&#225;gil e precioso, e leu os versos. De seus olhos cansados, enquanto ela fazia a leitura, muito concentrada, brotaram l&#225;grimas que ela tentava conter.</p><p>Na pr&#243;xima reuni&#227;o de fam&#237;lia, um almo&#231;o de Natal, ap&#243;s todos estarem saciados &#224; mesa, Teresa subiu ao escrit&#243;rio e, voltando com o papel em m&#227;os, pediu sil&#234;ncio e come&#231;ou a ler em voz alta o poema p&#243;stumo. Todos se emocionaram.</p><p>- Que lindo, m&#227;e! &#8211; disse a filha com os olhos marejados.</p><p>Aos poucos, aquele poema tornou-se uma forma de tradi&#231;&#227;o familiar, de modo que todo almo&#231;o de Natal era finalizado com a sua leitura ou declama&#231;&#227;o, pois o filho do Dr. Homero aprendeu a recitar de cor o soneto. A figura de poeta sobrep&#244;s-se, postumamente, &#224; do juiz de direito.</p><p>Cronos, no entanto, devora seus filhos e, com o tempo, foram morrendo, primeiro a esposa, depois os filhos do Dr. Homero. Aos netos, agora j&#225; adultos, aqueles versos pouco significavam, de modo que o poema ficou esquecido novamente, agora com todos os seus versos conclusos, em alguma gaveta empoeirada.</p><p>Quem sabe se um dia ser&#225; encontrado e lido outra vez?       <em> </em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Um conto sobre arrependimento e o que fazer com ele]]></title><description><![CDATA[O livro perdido]]></description><link>https://wagnercastro.substack.com/p/um-conto-sobre-arrependimento-e-o</link><guid isPermaLink="false">https://wagnercastro.substack.com/p/um-conto-sobre-arrependimento-e-o</guid><dc:creator><![CDATA[wagner castro]]></dc:creator><pubDate>Tue, 29 Jul 2025 14:27:46 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5VHS!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fba2998e7-c540-4fd8-b6c4-31e337b55c59_144x144.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h1><strong>O livro perdido</strong></h1><p><em>&#8220;Um verso grego diz que nem mesmo os deuses podem mudar o passado. Mas isso &#233; verdade?&#8221;<strong><a href="#_ftn1">[1]</a></strong></em></p><p>H&#225; muitos anos em uma grande cidade do nordeste brasileiro havia um grande hospital p&#250;blico que possu&#237;a, como constru&#231;&#227;o anexa ao pr&#233;dio principal, uma biblioteca aberta ao p&#250;blico. Nessa biblioteca trabalhava uma senhora de cerca de quarenta e cinco anos chamada Marta, que gostava do emprego pois, al&#233;m de pagar-lhe um sal&#225;rio digno, era um trabalho sem grandes estresses, apesar de tamb&#233;m n&#227;o ter o grande brilho com o qual ela sonhara durante os tempos de juventude.</p><p>O pr&#233;dio da biblioteca era bem ventilado, possu&#237;a muitas entradas para a luz natural e, apesar de no meio da tarde e durante a manh&#227; o local ser frequentado por poucas pessoas, na hora do intervalo do almo&#231;o e ao final do expediente do hospital ao lado sempre era visitado por um n&#250;mero consider&#225;vel de funcion&#225;rios, m&#233;dicos, enfermeiras e outros, os quais costumavam sentar-se nas poltronas distribu&#237;das pelo sal&#227;o para relaxar, ler ou cochilar um pouco.</p><p>Em um dia muito quente, comum naquela regi&#227;o do pa&#237;s, Marta chegou mais cedo para abrir a biblioteca, pois especialmente naquela manh&#227; havia perdido o sono muito cedo, de modo que preferiu sair logo de casa para pegar menos tr&#226;nsito no caminho. Havia muito tempo que ela n&#227;o lia nenhum livro, mas, por algum motivo, sonhara durante a madrugada com um livrinho de que gostava em sua juventude, uma colet&#226;nea de poetas brasileiros: Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cruz e Sousa etc. Por causa deste sonho ela ent&#227;o viera desde a sua casa decidida a encontrar o tal livrinho na biblioteca, com a certeza de j&#225; o ter visto por l&#225;, j&#225; que o local era relativamente pequeno e era poss&#237;vel, ao menos para algu&#233;m que trabalhava l&#225; h&#225; tantos anos, decorar o lugar aproximado das principais obras e autores.</p><p>Ao chegar l&#225;, Marta foi direto para a se&#231;&#227;o de livros de poesia, que ficava num canto pouco iluminado da biblioteca, por&#233;m, para a sua surpresa, n&#227;o achou nada. Pode parecer estranho que ela tenha ficado t&#227;o chocada pelo fato de n&#227;o achar um livro na biblioteca &#8211; coisa ali&#225;s, comum &#8211; mas, seja porque havia muitos anos que ela n&#227;o falhava em achar de primeira o que estava procurando naquele local, seja porque este primeiro acontecimento fosse o pren&#250;ncio dos fatos ainda mais estranhos que iriam acontecer, a verdade &#233; que Marta ficou perplexa.</p><p>Foi ent&#227;o at&#233; um dos funcion&#225;rios da limpeza, que estava passando pelo corredor que dava acesso &#224; porta principal da biblioteca.</p><p>- N&#227;o achei aquele livrinho amarelo de poesia brasileira. Voc&#234; viu? &#8211; perguntou-lhe.</p><p>O funcion&#225;rio tentou disfar&#231;ar a estranheza da pergunta, pois n&#227;o havia nenhum motivo para ele saber do paradeiro do tal livrinho.</p><p>- N&#227;o vi n&#227;o, senhora. N&#227;o est&#225; na se&#231;&#227;o de poesia?</p><p>- S&#227;o poucos livros l&#225;, se estivesse eu j&#225; teria achado.</p><p>Ele olhou para Marta e, mudo, deu a entender que tinha de ir em frente e que aquele n&#227;o era um problema com o qual gostaria de se envolver. Marta ent&#227;o agradeceu e retornou &#224; biblioteca, pensativa. N&#227;o havia para quem mais perguntar &#8211; o seu colega, que trabalhava no turno da tarde, iria demorar, e faltava-lhe a coragem para ligar ou mandar mensagem para ele perguntando sobre algo que seria considerado pouco importante.</p><p>Ocorreu-lhe ent&#227;o a ideia &#8211; que j&#225; deveria ter ocorrido antes - de verificar no computador se o livrinho n&#227;o havia sido retirado por algu&#233;m. Consultou, portanto, o registro de retiradas de livros, mas sem sucesso: h&#225; muitos anos ningu&#233;m o retirava.</p><p>Foi quando Marta resolveu voltar mais uma vez &#224; prateleira para averiguar novamente se o livro realmente n&#227;o estava l&#225; que algo inusitado aconteceu. Ela percebeu que havia uma luminosidade diferente, fantasmag&#243;rica, naquele canto obscuro da biblioteca onde ficava a se&#231;&#227;o de livros de poesia. Era uma luz solar, por assim dizer, mas que n&#227;o poderia ser proveniente do sol, visto que aquele local s&#243; era visitado pelos raios solares no final da tarde e ainda eram as primeiras horas da manh&#227;. O sentimento que aquela vis&#227;o provocava n&#227;o era nem o de familiaridade tranquila, como quando vemos um animal de estima&#231;&#227;o de quem gostamos, nem o terror que obriga a fugir, como o que nos assalta quando ocorre a apari&#231;&#227;o de um animal selvagem e feroz; era uma esp&#233;cie de temor reverencial que atrai.</p><p>Marta aproximou-se lentamente do local de onde vinha a luz e percebeu o motivo de ela parecer t&#227;o estranha: ela vinha de um corredor que nunca estivera ali, durante todos os anos em que Marta trabalhara naquela biblioteca. Era um corredor muito longo e todo iluminado por aquela luz muito forte, dourada. Marta sabia, como sabemos as coisas nos sonhos sem que ningu&#233;m precise explic&#225;-las, que entrar naquele corredor era uma decis&#227;o que mudaria para sempre a sua vida, para o bem ou para o mal, mas ela simplesmente n&#227;o conseguia resistir &#224; atra&#231;&#227;o que aquela vis&#227;o exercia sobre ela, como se houvesse um im&#227; a trag&#225;-la em dire&#231;&#227;o ao desconhecido.</p><p>Por incont&#225;veis vezes, vinha-lhe &#224; mente agora, Marta havia se perguntado como seria a sua vida se ela tivesse feito outras escolhas, agido diferente, tomado outros caminhos durante a juventude, e era como se aquele estranho corredor estivesse ali para responder a todas estas indaga&#231;&#245;es, jamais formuladas de forma t&#227;o bem articulada em palavras como naquele momento.</p><p>Pensando nestas coisas, Marta caminhava como son&#226;mbula em dire&#231;&#227;o &#224;quela estranha dimens&#227;o, que parecia suspensa entre o c&#233;u e a terra. O primeiro grande arrependimento de vida que Marta tinha aconteceu quando ela tinha vinte e dois anos e foi at&#233; l&#225; que ela &#8220;chegou&#8221;, por assim dizer, atrav&#233;s daquele corredor. Naquela &#233;poca, ela tinha um namorado que a amava chamado Dirceu, pessoa bon&#237;ssima, educado e t&#237;mido, mas que gostava de usar guarda-chuvas quando amea&#231;ava chuva, e a verdade &#233; que, por algum motivo, Marta achava aquilo muito brega, o que fez com que ela terminasse o namoro apenas por causa deste pequeno defeito, apesar de, naqueles dias, ela ter explicado para ele - e para si mesma - que o real motivo era outro. Na &#233;poca ela seguiu em frente com a sua vida &#8211; outros namorados, outras preocupa&#231;&#245;es &#8211; sem pensar que decis&#245;es importantes tomadas por impulsos superficiais poderiam levar a consequ&#234;ncias sem volta. Depois dessa decis&#227;o, Marta nunca mais havia dado certo com ningu&#233;m; seu destino amoroso parecia ser como um navio que, partindo na dire&#231;&#227;o incorreta, jamais consegue voltar ao rumo certo.</p><p>Agora, no entanto, era lhe dada novamente a escolha de continuar namorando o bom mo&#231;o, de modo que guarda-chuva nenhum iria impedir a sua eterna felicidade. Mas, quando ela fez uma nova escolha, a escolha &#8220;certa&#8221; de n&#227;o terminar aquele relacionamento, algo inusitado aconteceu: foi como se ela perdesse um pouco da sua capacidade de a&#231;&#227;o, da sua for&#231;a de existir.</p><p>Assim que terminou de transpor esse primeiro cruzamento entre o tempo passado e o reino da possibilidade universal, Marta seguiu adiante por aquele corredor, que ficava cada vez mais apertado. Foi quando se viu perante outro dos seus grandes arrependimentos do passado, que ela nunca verbalizou a ningu&#233;m (ao menos, n&#227;o de forma clara): a escolha profissional. Em seus momentos de devaneio, ela sonhava em ser outra coisa, qualquer outra coisa que fosse mais ousada, menos comum, menos simples, quem sabe m&#233;dica, militar, policial ou advogada: &#8220;Qualquer outra op&#231;&#227;o de carreira mais ousada, pois s&#243; assim eu serei feliz&#8221;, pensava agora que a oportunidade lhe aparecia novamente.</p><p>Um redemoinho envolveu-a ent&#227;o, e ela se viu de repente vivendo uma outra vida, uma vida heroica, extraordin&#225;ria, memor&#225;vel, salvando muitas vidas, viajando pelo mundo, conhecendo muita gente importante, escrevendo livros de milhares de p&#225;ginas, falando para multid&#245;es incont&#225;veis que sorviam com sofreguid&#227;o as suas palavras... Tudo isso ela viu num &#225;timo de tempo.</p><p>Entretanto, assim que a nossa intr&#233;pida protagonista passou por este segundo passo em sua nova trajet&#243;ria rumo a uma nova vida, foi como se ela ficasse &#8220;emba&#231;ada&#8221; &#8211; n&#227;o apenas a vis&#227;o da imagem dela, mas a sua pr&#243;pria for&#231;a existencial ficou emba&#231;ada dentro do Ser.</p><p>Talvez voc&#234; deva estar se perguntando se, depois de ter sentido que as duas primeiras escolhas que fez a obrigaram a perder algo que, apesar de dif&#237;cil de definir, parecia t&#227;o essencial, Marta n&#227;o poderia ter parado por a&#237;, ou mesmo tentado &#8220;retroceder&#8221; em suas novas escolhas de passado. A verdade &#233; que possivelmente ela j&#225; n&#227;o pudesse mais voltar atr&#225;s, ou talvez ela simplesmente n&#227;o quisesse, de modo que o fato &#233; que ela prosseguiu em frente por aquele corredor, a cada arrependimento de vida apresentado fazendo uma escolha diferente daquela que fizera em sua antiga vida, tudo ocorrendo cada vez mais r&#225;pido, como numa queda de uma altura muito grande em que se ganha cada vez mais velocidade.</p><p>Quem j&#225; se perdeu em um labirinto, ou em uma grande cidade, conhece a sensa&#231;&#227;o de perceber que quanto mais se anda, menos prov&#225;vel &#233; conseguir voltar ao lugar de origem, de modo que, a cada novo desvio naquele estranho corredor que Marta fazia, mais distante ela ficava de voltar a ser a Marta &#8220;original&#8221;, pois mais apagada da mem&#243;ria &#8211; n&#227;o s&#243; da mem&#243;ria dela, mas da pr&#243;pria mem&#243;ria do Ser &#8211; ela se tornava e menor - no sentido da pr&#243;pria exist&#234;ncia, n&#227;o apenas no sentido f&#237;sico - ela ficava, at&#233; que, tantos foram os desvios, tantas as rotas alternativas tomadas por Marta que ela logo se tornou apenas um pontinho min&#250;sculo, invis&#237;vel para todos, habitando na zona indistinta entre o ser e o n&#227;o-ser.</p><div><hr></div><p><a href="#_ftnref1">[1]</a> C. S. Lewis. At&#233; que tenhamos rostos. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021, p. 179.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O casamento da Tristeza e da Euforia]]></title><description><![CDATA[Uma f&#225;bula sobre a busca da justa medida]]></description><link>https://wagnercastro.substack.com/p/o-casamento-da-tristeza-e-da-euforia</link><guid isPermaLink="false">https://wagnercastro.substack.com/p/o-casamento-da-tristeza-e-da-euforia</guid><dc:creator><![CDATA[wagner castro]]></dc:creator><pubDate>Sat, 26 Jul 2025 22:28:16 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5VHS!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fba2998e7-c540-4fd8-b6c4-31e337b55c59_144x144.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Em um universo paralelo onde residem as puras ideias plat&#244;nicas, certo dia a Tristeza, cansada da monotonia e do vazio existencial que a sobrecarregavam, pediu a Euforia em casamento. Esta ent&#227;o perguntou-lhe:</p><p>- Mas, por que queres te casar comigo? O que ganho com isso?</p><p>- Ora, eu posso te fazer mais s&#233;ria, mais sisuda, mais respeit&#225;vel e tu, em troca, podes me fazer mais simp&#225;tica, podes me dar mais vi&#231;o e energia &#8211; respondeu-lhe a Tristeza, tentando cativ&#225;-la.</p><p>Obviamente, a Tristeza n&#227;o precisou insistir muito, pois a Euforia costumava tomar decis&#245;es de forma r&#225;pida, e assim logo casaram-se. No in&#237;cio, tudo correu maravilhosamente bem: a Euforia tornou-se mais quieta e pensativa, e a Tristeza, por outro lado, tornou-se mais animada e cheia de vida.</p><p>N&#227;o demorou, no entanto, para que surgissem alguns conflitos, pois, logo elas descobriram, a uni&#227;o de dois v&#237;cios n&#227;o leva necessariamente ao justo equil&#237;brio da virtude. A Tristeza, agora insuflada pela nova energia que lhe fora dada pela Euforia, tornou-se ent&#227;o ansiedade, agonia, tormento; e a Euforia, por sua vez, influenciada pela Tristeza, transformou-se em ira, impaci&#234;ncia e amargura &#8211; o v&#237;cio de uma exacerbou ainda mais o defeito da outra.</p><p>- O que faremos? O que faremos? &#8211; perguntava, em desespero, a Euforia correndo para l&#225; e para c&#225; sem conseguir parar para refletir um pouco.</p><p>- Talvez n&#227;o haja o que fazer! Est&#225; tudo acabado! &#8211; respondia a Tristeza, angustiada em seu cantinho escuro.</p><p>Separaram-se, ent&#227;o. Aos poucos, a Tristeza retomou os seus velhos h&#225;bitos e, melanc&#243;lica, recolheu-se, isolando-se cada vez mais de tudo e de todos. J&#225; a Euforia voltou &#224; antiga impetuosidade e resolveu viajar pelo mundo das abstra&#231;&#245;es para esquecer tudo aquilo.</p><p>No entanto, a Tristeza, em seus momentos de lamenta&#231;&#227;o, lembrando-se dos seus defeitos e daqueles da Euforia, passou a pensar que talvez houvesse um meio-termo entre o excesso de reflex&#227;o que a sobrecarregava e a superficialidade da companheira e, da mesma forma, a Euforia, em seus momentos de esgotamento depois de longos per&#237;odos de intensa atividade, passou a perceber a necessidade de uma radical mudan&#231;a em seu estilo de vida.</p><p>A partir da&#237;, de maneira sutil e inicialmente impercept&#237;vel, a Tristeza foi aos poucos aproximando-se da calma, da paz, da quietude, da tranquilidade e at&#233; mesmo da a&#231;&#227;o e do j&#250;bilo nos seus melhores dias; enquanto a Euforia foi se aproximando da alegria, do contentamento, do otimismo, do prazer, do deleite e, eventualmente, da serenidade e da reflex&#227;o.</p><p>Ent&#227;o elas se uniram novamente e viveram felizes para sempre, ou quase sempre, pois, apesar de tudo ter melhorado, algumas vezes elas ainda se desentendem e t&#234;m de sentar para conversar.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Poesia & Matemática]]></title><description><![CDATA[Nas p&#225;ginas iniciais do primeiro volume da Historia de la Literatura Universal, Mart&#237;n de Riquer e Jos&#233; Mar&#237;a Valverde nos contam que era comum na literatura da &#205;ndia antiga que tratados de matem&#225;tica, medicina ou ci&#234;ncias fossem escritos em versos - algo que, obviamente, com o avan&#231;o cient&#237;fico atual, seria imposs&#237;vel: ningu&#233;m dedicaria seu tempo a ler tratados de 1.200 p&#225;ginas de um texto m&#233;dico que, provavelmente, n&#227;o conseguiria ser nem boa poesia, nem boa descri&#231;&#227;o cient&#237;fica&#8230;]]></description><link>https://wagnercastro.substack.com/p/poesia-and-matematica</link><guid isPermaLink="false">https://wagnercastro.substack.com/p/poesia-and-matematica</guid><dc:creator><![CDATA[wagner castro]]></dc:creator><pubDate>Sun, 20 Jul 2025 18:24:36 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5VHS!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fba2998e7-c540-4fd8-b6c4-31e337b55c59_144x144.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Nas p&#225;ginas iniciais do primeiro volume da Historia de la Literatura Universal, Mart&#237;n de Riquer e Jos&#233; Mar&#237;a Valverde nos contam que era comum na literatura da &#205;ndia antiga que tratados de matem&#225;tica, medicina ou ci&#234;ncias fossem escritos em versos - algo que, obviamente, com o avan&#231;o cient&#237;fico atual, seria imposs&#237;vel: ningu&#233;m dedicaria seu tempo a ler tratados de 1.200 p&#225;ginas de um texto m&#233;dico que, provavelmente, n&#227;o conseguiria ser nem boa poesia, nem boa descri&#231;&#227;o cient&#237;fica&#8230;</p><p>Inspirado nesta ideia, no entanto, escrevi o seguinte poema que, espero eu, n&#227;o seja de todo ruim nem como poesia, nem como convite ao estudo da matem&#225;tica.</p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>A um matem&#225;tico</strong>

Para Fernando Zalamea

&#8220;Ningu&#233;m poder&#225; nos expulsar do para&#237;so que Cantor criou para n&#243;s.&#8221; (D. Hilbert)


O que &#233;, no fim de tudo, a matem&#225;tica?

Ci&#234;ncia do mundo ideal ou pr&#225;tica?

As duas coisas? Talvez uma imagem...

Descoberta, e inven&#231;&#227;o, e linguagem.



A l&#243;gica e a ci&#234;ncia dos conjuntos

Fundam o estudo de outros assuntos:

N&#250;meros e espa&#231;os vetoriais

- Junto da an&#225;lise dos reais-,



Complexa an&#225;lise, topologia,

Grupos, Galois e a geometria

Diferencial com variedades



De Riemann; de Grothendieck unidades

(Topos) que fazem saber as verdades

Sobre o feixe de uma Categoria.</pre></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O estudo como vocação cristã]]></title><description><![CDATA[A vida de estudos como disciplina espiritual - cap&#237;tulo de meu livro "A vida espiritual"]]></description><link>https://wagnercastro.substack.com/p/o-estudo-como-vocacao-crista</link><guid isPermaLink="false">https://wagnercastro.substack.com/p/o-estudo-como-vocacao-crista</guid><dc:creator><![CDATA[wagner castro]]></dc:creator><pubDate>Sat, 19 Jul 2025 17:20:16 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5VHS!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fba2998e7-c540-4fd8-b6c4-31e337b55c59_144x144.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>No livro de Lev&#237;tico, um dos livros do Pentateuco que descreve a lei cerimonial atrav&#233;s da qual os israelitas deveriam adorar a Deus, o primeiro sacrif&#237;cio ordenado &#233; o holocausto, o sacrif&#237;cio de um animal que era totalmente queimado em oferenda a Deus<a href="#_ftn1">[1]</a>. &#201;, para n&#243;s, um s&#237;mbolo de que devemos ofertar todo o nosso ser &#8211; corpo, mente, emo&#231;&#245;es, pensamentos etc. &#8211; em adora&#231;&#227;o e servi&#231;o a Deus, conforme as palavras de Jesus Cristo:</p><p><em>E, respondendo ele [Jesus], disse: Amar&#225;s ao Senhor teu Deus de todo o teu cora&#231;&#227;o, e de toda a tua alma, e de todas as tuas for&#231;as, e de todo o teu entendimento [...]</em><a href="#_ftn2">[2]</a></p><p>N&#227;o espanta, portanto, que a vida de estudos seja uma disciplina espiritual importante em praticamente todas as ordens religiosas crist&#227;s (assim como em outras tradi&#231;&#245;es religiosas): o ser humano, como ser pensante &#8211; fruto do Intelecto Divino que o criou &#8211; deve adorar a Deus tamb&#233;m atrav&#233;s do cultivo de sua mente.</p><p>Hernandes Dias Lopes, citando Martyn Lloyd-Jones, escreve:</p><p><em>Al&#233;m da b&#237;blia, todo pregador deve ser um s&#233;rio estudante de teologia enquanto viver. Deve tamb&#233;m estudar hist&#243;ria da igreja, biografias, apolog&#233;tica, bem como outros tipos de leitura.</em><a href="#_ftn3">[3]</a></p><p>&#201; &#243;bvio que essa observa&#231;&#227;o que Hernandes Dias Lopes faz, com rela&#231;&#227;o aos pregadores do evangelho e aos pastores, serve tamb&#233;m para todas as pessoas que buscam crescer espiritualmente. H&#225;, no entanto, uma express&#227;o no texto citado acima &#8211; &#8220;<em>outros tipos de leitura&#8221; &#8211; que, acredito, c</em>onv&#233;m explorar um pouco mais.</p><p>No conhecido livro do sacerdote cat&#243;lico Antonin Sertillanges sobre a vida intelectual<a href="#_ftn4">[4]</a>, este recomenda enfaticamente o estudo daquilo que ele chama de &#8220;ci&#234;ncia comparada&#8221; (termo retirado de outro manual acerca da vida intelectual escrito por outro sacerdote cat&#243;lico franc&#234;s, Alphonse Gratry<a href="#_ftn5">[5]</a>, que Sertillanges cita em diversos momentos de seu livro). Transcrevo abaixo duas passagens (uma de cada um dos livros citados) para dar uma ideia da amplid&#227;o de interesses que nutriam esses dois mestres da vida espiritual. Escreve Sertillanges:</p><p><em>Toda ci&#234;ncia, cultivada em separado, n&#227;o s&#243; n&#227;o se basta a si mesma, mas apresenta perigos que todos os homens sensatos reconheceram. A matem&#225;tica tomada isoladamente deturpa o racioc&#237;nio, habituando-o a um rigor que nenhuma outra ci&#234;ncia, e menos ainda a vida real, comporta. A f&#237;sica e a qu&#237;mica obcecam por sua complexidade e n&#227;o conferem ao esp&#237;rito nada de amplo. A fisiologia leva ao materialismo, a astronomia &#224; divaga&#231;&#227;o, a geologia os transforma num c&#227;o de ca&#231;a farejador, a literatura os esvazia, a filosofia os estufa, a teologia os abandona ao falso sublime e ao orgulho doutoral. &#201; preciso passar de um esp&#237;rito ao outro a fim de corrigi-los um pelo outro; &#233; preciso alternar as culturas para n&#227;o arruinar o solo.</em></p><p><em>E n&#227;o pensem que levar <strong>at&#233; um certo ponto</strong></em><strong><a href="#_ftn6">[6]</a></strong><em> esse estudo comparado seja sobrecarreg&#225;-los e atras&#225;-los no estudo de uma especialidade. N&#227;o estar&#227;o sobrecarregados, pois as luzes descobertas na compara&#231;&#227;o os aliviar&#227;o, pelo contr&#225;rio, em tudo; assumindo maior amplitude, seu esp&#237;rito estar&#225; mais capacitado a receber sem arcar com qualquer sobrepeso.</em></p><p><em>Quando se acessa o centro das ideias, tudo fica mais f&#225;cil, e qual o melhor meio de ter acesso ao centro sen&#227;o testando diferentes vias que d&#227;o, todas, como os raios de um c&#237;rculo, a sensa&#231;&#227;o de um encontro num cruzamento comum?</em><a href="#_ftn7">[7]</a></p><p>Acerca desse mesmo tema escreve Alphonse Gratry:</p><p><em>O esp&#237;rito &#233; uma estranha capacidade, uma subst&#226;ncia de uma natureza surpreendente. Eu o exorto &#224; ci&#234;ncia comparada; pe&#231;o-lhe, portanto, que estude tudo: teologia, filosofia, geometria, f&#237;sica, fisiologia, hist&#243;ria. Muito bem; creio que assim sobrecarrego-lhe menos o esp&#237;rito do que se lhe dissesse para trabalhar com todas as suas for&#231;as, durante a vida inteira, somente na f&#237;sica, ou s&#243; na geometria, na filosofia ou na teologia.</em><a href="#_ftn8">[8]</a></p><p>Mas, por que raz&#227;o tanto Sertillanges quanto Gratry, ambos sacerdotes crist&#227;os, recomendavam o estudo de disciplinas t&#227;o d&#237;spares (que eu tomo para mim como sendo os <em>outros tipos de leitura</em> a que se referiam Martyn Lloyd-Jones e Hernandes Dias Lopes) n&#227;o apenas como uma forma de informar-se, ou mesmo visando a interesses acad&#234;micos ou profissionais, mas sim por causa dos benef&#237;cios cognitivos e espirituais decorrentes de se exercer a vida de estudos como uma disciplina espiritual?</p><p>A vida espiritual envolve, como vimos, a busca de se desenvolver o esp&#237;rito para se perceber a Verdade<a href="#_ftn9">[9]</a> divina que nos cerca e que se revela atrav&#233;s das coisas e das pessoas que est&#227;o ao nosso redor. A Verdade (com &#8220;V&#8221; mai&#250;sculo), ou seja, a Verdade absoluta, que &#233; o pr&#243;prio Deus, no entanto, nos &#233; inacess&#237;vel em sua totalidade, de forma que podemos conhec&#234;-la apenas parcialmente, podemos vislumbr&#225;-la, ainda que n&#227;o possamos apreend&#234;-la completamente. Como no dito de Arist&#243;teles j&#225; citado, n&#227;o podemos tomar posse completa de toda a Verdade, mas podemos sempre alcan&#231;ar alguma parte dela, posto que a Verdade n&#227;o nos &#233; nem totalmente acess&#237;vel nem totalmente inacess&#237;vel. O estudo, portanto, daquilo que Sertillanges e Gratry chamam de &#8220;ci&#234;ncia comparada&#8221; e Lloyd-Jones e Hernandes Dias Lopes chamam de &#8220;outros tipos de leitura<em>&#8221; </em>visa, como disciplina espiritual, colocar a alma em contato com a Verdade atrav&#233;s de uma esp&#233;cie de contempla&#231;&#227;o do entrela&#231;amento que ocorre entre as verdades parciais absorvidas a partir do estudo de cada diferente disciplina (da mesma maneira que um poliglota apreende algo de uma poss&#237;vel &#8220;gram&#225;tica universal&#8221; que &#233;, no entanto, materialmente inexistente, atrav&#233;s do estudo dos diversos idiomas). Sendo assim, o estudo, como disciplina espiritual, n&#227;o visa nunca, como vimos anteriormente acerca da educa&#231;&#227;o, apenas a<a href="#_msocom_1">[HO1]</a> algum tipo de ac&#250;mulo de conhecimentos, mas, antes, visa &#224; contempla&#231;&#227;o da Verdade existente em cada verdade presente no universo criado. Desta forma, fica claro que qualquer programa de estudos que tenha objetivos espirituais ser&#225; sempre, por melhor que seja, imperfeito (o que n&#227;o quer dizer que n&#227;o se possa ter bons programas de estudo), visto que o estudo, como disciplina espiritual, n&#227;o visa alcan&#231;ar a posse completa de uma verdade como sistema de pensamento, mas sim visa alcan&#231;ar uma esp&#233;cie de intui&#231;&#227;o n&#227;o verbaliz&#225;vel da Verdade, que utiliza o ac&#250;mulo de conhecimentos como meio para alcan&#231;ar esta finalidade. Portanto, ainda que tais conhecimentos sejam em si mesmo muito &#250;teis e importantes, eles ser&#227;o sempre insuficientes para os prop&#243;sitos espirituais se estiverem desacompanhados de um esp&#237;rito devotado a Deus.</p><div><hr></div><p><a href="#_ftnref1">[1]</a> Cf. Lev&#237;tico 1:1-17.</p><p><a href="#_ftnref2">[2]</a> Lucas 10:27.</p><p><a href="#_ftnref3">[3]</a> Martyn L.- J. Preaching &amp; preachers. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1971, p. 177-179; <em>apud </em>Lopes, H. D. Piedade e Paix&#227;o: a vida do ministro &#233; a vida do seu minist&#233;rio. 1 ed. S&#227;o Paulo: Editora Candeia, 2002, p. 51.</p><p><a href="#_ftnref4">[4]</a> Sertillanges, A.- D. op. cit.</p><p><a href="#_ftnref5">[5]</a> Gratry, A. Conselhos para a dire&#231;&#227;o do esp&#237;rito. 1 ed. Campinas: K&#237;rion, 2019.</p><p><a href="#_ftnref6">[6]</a> Em it&#225;lico na tradu&#231;&#227;o consultada.</p><p><a href="#_ftnref7">[7]</a> Sertillanges, A.&#8211; D. op. cit., pg. 91.</p><p><a href="#_ftnref8">[8]</a> Gratry, A. op. cit., pg. 57-58.</p><p><a href="#_ftnref9">[9]</a> Assim como a Beleza, a Bondade e todos os demais atributos de Deus.</p><div><hr></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A meditação como disciplina do espírito]]></title><description><![CDATA[Um cap&#237;tulo do meu livro "A vida espiritual", onde reflito sobre a import&#226;ncia da medita&#231;&#227;o]]></description><link>https://wagnercastro.substack.com/p/a-meditacao-como-disciplina-do-espirito</link><guid isPermaLink="false">https://wagnercastro.substack.com/p/a-meditacao-como-disciplina-do-espirito</guid><dc:creator><![CDATA[wagner castro]]></dc:creator><pubDate>Wed, 09 Jul 2025 23:03:41 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5VHS!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fba2998e7-c540-4fd8-b6c4-31e337b55c59_144x144.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Richard Foster, no livro <em>Celebra&#231;&#227;o da Disciplina<strong><a href="#_ftn1">[1]</a></strong>, </em>cita a medita&#231;&#227;o como uma das principais disciplinas espirituais do cristianismo. Foster, obviamente, n&#227;o foi o primeiro a escrever sobre essa disciplina espiritual, que pertence, na verdade, a diversas tradi&#231;&#245;es religiosas e filos&#243;ficas. No entanto, acredito que h&#225; em geral um mal-entendido com respeito ao que realmente significa o termo <em>meditar, </em>pelo menos com rela&#231;&#227;o ao sentido crist&#227;o do termo<a href="#_ftn2">[2]</a>. O progresso na vida espiritual decorre da maior percep&#231;&#227;o da Verdade, da Beleza, da Bondade etc. &#8211; que s&#227;o aspectos divinos e, portanto, manifesta&#231;&#245;es de Deus &#8211; presentes na cria&#231;&#227;o, presentes ao nosso redor e em nosso interior. Esse progresso envolve, portanto, enxergar algo que no fim das contas sempre esteve presente, ainda que n&#227;o fosse plenamente percebido. Assim, a verdadeira medita&#231;&#227;o trata n&#227;o da realiza&#231;&#227;o de uma t&#233;cnica<a href="#_ftn3">[3]</a>, mas sim de uma atitude mental e espiritual que envolve esvaziar-se constantemente dos pensamentos que s&#227;o fruto da psique humana, para que se possa dar lugar a uma contempla&#231;&#227;o intuitiva da Verdade presente no universo criado e que &#233; fruto da onipresen&#231;a divina manifestada na cria&#231;&#227;o<a href="#_ftn4">[4]</a>. Transcrevo abaixo um poema de Bruno Tolentino, o qual vai nos ajudar, assim espero, a entender melhor o que digo:</p><p><em>Suponha-se a Medusa redimida,</em></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://wagnercastro.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Wagner! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p><em>uma anti-Medusa que acordasse</em></p><p><em>em seu po&#231;o de est&#225;tuas face a face</em></p><p><em>com a escurid&#227;o de pedra e, arrependida,</em></p><p><em>saudosa agora do fugaz, da vida,</em></p><p><em>de tudo o que exilou, enfim tentasse</em></p><p><em>um novo olhar, o olhar da despedida,</em></p><p><em>por exemplo, o olhar do desenlace,</em></p><p><em>da resigna&#231;&#227;o&#8230; Pobre coitada!</em></p><p><em>Como trazer de volta agora aquela</em></p><p><em>doce fragilidade dantes, se ela</em></p><p><em>j&#225; mal recorda a &#226;nsia, o quase-nada,</em></p><p><em>o brilho que era o ser? A madrugada</em></p><p><em>n&#227;o volta a um calabou&#231;o sem janela.<strong><a href="#_ftn5">[5]</a></strong></em></p><p>Nosso pensamento &#8211; representado no poema pela Medusa &#8211; &#233; sempre abstrato e, desta forma, tem a constante tend&#234;ncia de petrificar a realidade, transformando-a em f&#243;rmulas prontas de nossa pr&#243;pria inven&#231;&#227;o. Meditar &#233;, portanto, como vimos, adotar uma atitude de alma em que se est&#225; sempre aberto para que a realidade da vida e, atrav&#233;s dela, o pr&#243;prio Deus, nos falem. Nesse sentido, uma atitude meditativa &#233; necess&#225;ria &#224; vida espiritual para que, a partir daquilo que absorvemos atrav&#233;s do estudo, da ora&#231;&#227;o, da vida em comunidade, da observa&#231;&#227;o da natureza, da participa&#231;&#227;o na vida etc. surja, como que num impulso &#8211; num <em>insight</em> &#8211; a percep&#231;&#227;o intuitiva da Verdade presente nas coisas<a href="#_ftn6">[6]</a>. Ted Kaptchuk conta-nos, em seu livro <em>The web that has no weaver</em><a href="#_ftn7">[7]</a>, acerca de um de seus professores de medicina tradicional chinesa que, ap&#243;s anos de estudo e de treinamento, simplesmente sabia o tratamento que seus pacientes necessitavam, muitas vezes sem nem sequer perguntar nada para eles. Idealmente, o objetivo de toda educa&#231;&#227;o &#8211; falo aqui mais especificamente da educa&#231;&#227;o espiritual, mas acredito que essa observa&#231;&#227;o sirva tamb&#233;m para todo tipo de educa&#231;&#227;o profissional, art&#237;stica etc. &#8211; &#233; que cada aprendiz esteja t&#227;o impregnado dos conhecimentos pertencentes &#224; sua &#225;rea de interesse que ele simplesmente consiga perceber o que fazer em cada situa&#231;&#227;o concreta quase que de forma intuitiva. Por isso, o alvo da verdadeira educa&#231;&#227;o nunca &#233; a simples transmiss&#227;o de informa&#231;&#245;es a serem absorvidas intelectualmente, mas sim a transmiss&#227;o de um esp&#237;rito e de uma forma de se portar perante a vida, que usa, entretanto, a transmiss&#227;o de informa&#231;&#245;es como meio para alcan&#231;ar essa finalidade. Do mesmo modo, a educa&#231;&#227;o espiritual envolve a transmiss&#227;o de conhecimentos que facilitem o desenvolvimento da capacidade de se ouvir aquilo que Deus est&#225; sempre a nos falar atrav&#233;s das escrituras sagradas, da ora&#231;&#227;o, dos acontecimentos da vida, das pessoas que nos cercam etc., e isso porque, na verdade, Deus est&#225; sempre a nos falar, ainda que n&#243;s nem sempre estejamos preparados para ouvi-lO.</p><p>&#201; claro que, quando falo de alcan&#231;ar um tal estado de alma em que se esteja sempre pronto a ouvir aquilo que Deus nos fala atrav&#233;s da nossa vida, falo de buscar um ideal que jamais atingiremos totalmente enquanto vivermos, pois a vida espiritual envolve a constante persegui&#231;&#227;o de ideais que n&#227;o ser&#227;o atingidos completamente, mas que nos tornam melhores enquanto estamos a persegui-los, ao mesmo tempo em que nos tornam mais humildes quando somos confrontados com eles.</p><div><hr></div><p><a href="#_ftnref1">[1]</a> Em Foster, R. Celebra&#231;&#227;o da disciplina: o caminho do crescimento espiritual. 2 ed. S&#227;o Paulo: Editora Vida, 2007.</p><p><a href="#_ftnref2">[2]</a> N&#227;o conhe&#231;o suficientemente as outras tradi&#231;&#245;es religiosas para falar a respeito do que se entende por <em>medita&#231;&#227;o </em>em cada uma delas<em>, </em>mas acredito piamente que a verdadeira medita&#231;&#227;o &#233;, na verdade, <em>uma atitude meditativa </em>e n&#227;o uma t&#233;cnica, como espero esclarecer melhor, independente de tradi&#231;&#227;o religiosa ou escola filos&#243;fica seguida.</p><p><a href="#_ftnref3">[3]</a> N&#227;o discuto aqui os poss&#237;veis benef&#237;cios f&#237;sicos ou cognitivos da realiza&#231;&#227;o de t&#233;cnicas respirat&#243;rias ou mentais, mas sim os aspectos espirituais da medita&#231;&#227;o como eu a entendo, baseado na tradi&#231;&#227;o crist&#227; e na filosofia cl&#225;ssica ocidental.</p><p><a href="#_ftnref4">[4]</a> Pelo que preferi usar a express&#227;o <em>atitude meditativa </em>como t&#237;tulo deste cap&#237;tulo em lugar de usar o termo <em>medita&#231;&#227;o.</em></p><p><a href="#_ftnref5">[5]</a> Tolentino, B. O mundo como ideia. S&#227;o Paulo: Globo, 2002.</p><p><a href="#_ftnref6">[6]</a> Ou, o que &#233; o mesmo, a percep&#231;&#227;o intuitiva da Beleza, da Bondade etc. presentes nas coisas.</p><p><a href="#_ftnref7">[7]</a> Cf. Kaptchuk, T. The web that has no weaver: Understanding chinese medicine. 2 ed. McGraw-Hill, 2000.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://wagnercastro.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Wagner! 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O incidente envolveu um dos primeiros descendentes de uma das mais importantes fam&#237;lias fundadoras de certo povoado que depois deu origem a uma grande cidade do sul do pa&#237;s, o Coronel Ramirez, como ele era chamado, que sempre fora homem tradicional, pai de uma grande fam&#237;lia, criador de gado, casado, ap&#243;s ter enviuvado da primeira mulher, com uma bela mo&#231;a que era vinte anos mais nova.</p><p>Um dia, no momento em que a cozinha estava cheia de criados que preparavam o almo&#231;o e a esposa supervisionava o traje das crian&#231;as antes libert&#225;-las para passar a manh&#227; brincando no campo, Coronel Ramirez se aproximou, montado em seu cavalo e vestido, como bom ga&#250;cho, a car&#225;ter : chap&#233;u, len&#231;o, camisa branca, colete, bombacha e botas com esporas. Parou &#224; porta da cozinha, olhou demoradamente para a esposa e para os filhos com seus olhos claros, tristes e, depois de erguer um pouco mais a cabe&#231;a para abarcar com o olhar a todos os presentes &#8211; todos os criados haviam interrompido o que estavam fazendo e olhavam-no curiosos &#8211; disse com voz firme, perempt&#243;ria:</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://wagnercastro.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Wagner! 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A lenda a respeito do Coronel Ramirez, entretanto, permaneceu viva, passada de gera&#231;&#227;o em gera&#231;&#227;o na conta&#231;&#227;o de hist&#243;rias ao redor da fogueira.</p><p>Cerca de cinquenta anos depois, numa tarde comum de Maio, muito ensolarada, em que o povo da cidade fazia seus afazeres e sofria suas labutas, devagarinho, em um trote leve e harmonioso, quase et&#233;reo, veio percorrendo a cavalo a rua principal do povoado, que conduzia &#224; igreja que ficava bem no centro, um forasteiro. O primeiro que o viu foi o botic&#225;rio, que cruzou a rua apressado para entrar no armaz&#233;m e contar o ocorrido. Logo um menino moreninho o apontava e o cavaleiro errante era cercado por todos: crian&#231;as, que corriam e gritavam excitadas, homens que, circunspectos, formavam um semic&#237;rculo &#224; frente do cavalo, obrigando-o a ir diminuindo a velocidade at&#233; parar, e mulheres e idosos que, &#224; porta das casas, permaneciam mais distantes em sua prud&#234;ncia. Era o Coronel Ramirez.</p><p>O homem estava obviamente envelhecido, mas apesar da pele fl&#225;cida e dos olhos de aspecto cansado, apresentava ainda o corpo firme, rijo, como se tivesse passado a vida em trabalhos &#225;rduos.</p><p>Ap&#243;s parar diante de todos, que o olhavam em sil&#234;ncio (at&#233; as crian&#231;as haviam interrompido os seus gritos), o velho cavaleiro apeou do cavalo e foi andando, puxando o cavalo pelas r&#233;deas, em dire&#231;&#227;o &#224; sua antiga resid&#234;ncia, que distava uns cinco quil&#244;metros dali. Toda essa dist&#226;ncia, que demorou mais de uma hora a ser percorrida a p&#233;, deu ocasi&#227;o ao que pareceu ser uma grande peregrina&#231;&#227;o de devotos contritos, muito concentrados em suas mis&#233;rias, que seguiam uma esp&#233;cie de l&#237;der espiritual.</p><p>Ap&#243;s percorrerem o caminho, quando se aproximavam da porteira que dava acesso &#224; resid&#234;ncia dos Ramirez, veio abri-la, todo afobado, um dos criados do local: a not&#237;cia j&#225; havia se espalhado.</p><p>O Coronel foi entrando e se dirigindo ent&#227;o para a entrada da casa, em seu passo lento e cansado, acompanhado da multid&#227;o enquanto era observado por todos os criados do rancho, que j&#225; haviam parado seus afazeres e olhavam-no boquiabertos. Ent&#227;o, assustado, tenso, saiu o filho mais novo do Coronel (que agora j&#225; era ele mesmo um senhor de quase sessenta anos) &#8211; os outros filhos n&#227;o estavam em casa e a mulher j&#225; havia falecido. Foi andando de encontro ao pai, com o rosto dolorido, cheio de espasmos. Pararam ent&#227;o, um de frente para o outro, guardando a dist&#226;ncia de cerca de um metro. O filho n&#227;o sabia o que dizer.</p><p>Ap&#243;s alguns segundos em que parecia que mesmo a terra, a lua e o sol haviam interrompido seus movimentos de rota&#231;&#227;o no c&#233;u, o Coronel reiniciou seu passo lento, abrindo caminho entre a multid&#227;o que o cercava para ir sentar-se num banco de madeira que ficava no alpendre da casa.</p><p>- Quer &#225;gua? &#8211; algu&#233;m ofereceu.</p><p>Ele ergueu os olhos e fez que sim com a cabe&#231;a.</p><p>Ap&#243;s beber, a goles generosos, o copo de &#225;gua ofertado enquanto olhava para o horizonte, o Coronel pareceu relaxar o corpo. Finalmente ent&#227;o algu&#233;m quebrou novamente o sil&#234;ncio:</p><p>- Mas ent&#227;o homem, o que &#233; a Verdade?</p><p>Os olhos do Coronel ent&#227;o pareceram se iluminar, como se uma brasa viva se acendesse em seu esp&#237;rito. Todos imaginavam que fabulosas aventuras ele n&#227;o haveria de ter participado, talvez lutado em guerras, conhecido reis, ido &#224; China ou at&#233; os confins da terra...</p><p>Ramirez come&#231;ou ent&#227;o a tentar falar. O sil&#234;ncio que se fez era t&#227;o grande que parecia que, com um pouco mais de esfor&#231;o, seria poss&#237;vel ouvir o som provocado pelos movimentos dos astros no c&#233;u.</p><p>O homem gesticulava muito, exaltado ao extremo, com movimentos bruscos que faziam com que todos descem um passo para tr&#225;s por causa do susto. No entanto, ningu&#233;m o compreendia: estava mudo e s&#243; emitia sons inintelig&#237;veis.</p><p>Alguma boa alma teve ent&#227;o a ideia de pegar papeis e l&#225;pis para que ele, tal qual o pai de Jo&#227;o Batista nos evangelhos, pudesse escrever, j&#225; que n&#227;o conseguia falar.</p><p>Ramirez tomou ent&#227;o o l&#225;pis e todas aquelas folhas de papel e saiu correndo, seguido de perto por todos, em dire&#231;&#227;o &#224; cozinha, onde, ainda em p&#233;, depositou os pap&#233;is sobre a mesa e come&#231;ou a desenhar freneticamente, em &#234;xtase. Fazia desenhos e esquemas fabulosos, intrincad&#237;ssimos em sua complexidade incompreens&#237;vel, aterradora. Eram planos que pareciam se abrir para outros planos, talvez indicando cinco ou seis dimens&#245;es espaciais para al&#233;m daquelas que conhecemos. Ent&#227;o ele passou a usar s&#237;mbolos matem&#225;ticos, caracteres do s&#226;nscrito, do hebraico, do &#225;rabe, do japon&#234;s e de muitas l&#237;nguas desconhecidas. Ao final, exausto, sentou-se, parecendo dar-se por satisfeito perante a explica&#231;&#227;o que ningu&#233;m entendeu. Aos poucos, um a um, todos foram indo embora pasmos, admirad&#237;ssimos.</p><p>Naquela noite, com um sorriso pac&#237;fico no rosto, morreu o Coronel Ramirez.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://wagnercastro.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Wagner! 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Se queres conquistar sabedoria

E a buscas mesmo com sinceridade,

Tem com as abstra&#231;&#245;es intimidade

Sem te entregares &#224; melancolia.



Faz como Jeremias, o profeta,

Que, sem abandonar a obliquidade

Da revela&#231;&#227;o, desceu &#224; cidade

E entrou numa olaria t&#227;o discreta.



Estende sem temor a tua m&#227;o

Ao barro da vida cotidiana

E sobe novamente em dire&#231;&#227;o



Ao cume do pensamento que clama

Por um posterior retorno ao ch&#227;o

De onde subir&#225; qual nova chama. 
</pre></div><p>Assim, &#233; desta eterna dial&#233;tica entre abstra&#231;&#227;o e viv&#234;ncia da vida concreta que o aprendiz tira a energia que o move at&#233; o ideal, a Sabedoria. </p><p> </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://wagnercastro.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Wagner! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>